RESENHA #102: O ASTUTO ASSASSINATO

 

AUTORA: Agatha Christie
SINOPSE: O trem expresso, porém, é detido a meio caminho da Iugoslávia por uma forte nevasca, e um passageiro com muitos inimigos é brutalmente assassinado durante a madrugada. Caberá a Poirot descobrir quem entre os passageiros teria sido capaz de tamanha atrocidade, antes que o criminoso volte a atacar ou escape de suas mãos.

As melhores qualidades de um romance policial estão voltadas para o campo semântico da inteligência. Entre todas as palavras que podemos selecionar, o que eu poderia citar como essencial nas obras de Agatha Christie, principalmente em Assassinato no Expresso do Oriente, é astúcia.

Astúcia provém da palavra de origem latina “astutia, ae” que significava o mesmo que “ardil, manha, hábito de iludir, engano, logro e trapaça”. Dentro da língua portuguesa, no dicionário Houaiss, a palavra ganha outro tom, além do primeiro, pois pode ser tanto algo positivo, como a “habilidade para não se deixar enganar e para negociar com vantagens; esperteza, manha, sagacidade”; quanto algo negativo, que seria a “habilidade de dissimular e usar artifícios enganadores e, com isso, obter vantagens às custas de outrem; malícia, treta, artimanha”.

Dentro da obra de Agatha, temos esse significado ambíguo. Vemos personagens eloquentes que não se deixam enganar, como o caso do célebre Hercule Poirot, o detetive belga que protagoniza a maioria das obras da autora, e também somos enganados, a cada página, talvez eu possa até sugerir que deixamo-nos enganar, muita das vezes, com os artifícios e habilidades de sua narrativa e escrita.

Sem sombra de dúvida, é extremamente difícil fazer uma resenha completa sobre Assassinato no Expresso do Oriente sem dar spoilers, visto que o final é o que engendra a complexidade da narrativa e que faz a história ser tão cheia de nuances criminais, psicológicas e humanas.

Agatha trabalha com o ser humano, ainda mais nessa obra. Ela trabalha com a complexidade da justiça, do julgamento, do crime, da impunidade e também da dor, da união e uma série de pontos que se relacionam conosco, a humanidade, enquanto vai contando a história de mais um caso do detetive Poirot. Esse caso, no final, se explora em duas possibilidades e, ainda que uma seja verdade e a outra uma falácia, você se vê tentado a se levar pelo caminho que melhor lhe apetece.

Entretanto, a melhor maneira de abarcar o máximo que essa história tem a oferecer é se aproveitar de sua estrutura narrativa e de sua divisão enquanto pedaços que se encaixam e se completam. Como toda a narrativa que busca o equilíbrio, Agatha a fez em três partes, aproveitando-se – muitíssimo bem – da simbologia numérica que o número carrega: “os fatos”, “os testemunhos” e “Hercule Poirot para para pensar”. 

 A priori, a trama tece e é tecida por Agatha Christie. Literalmente, diversos fatos vão ocorrendo que já fazem você formar, previa e preconceituosamente, uma opinião sobre alguns dos passageiros, às vezes, mais do que outras opiniões. Inclusive, os próprios personagens – a todo tempo – parecem ter opiniões prévias a respeito dos demais indivíduos.

O fato deles demonstrarem opiniões próprias e essas ideias serem muito claras para nós, leitores, faz com que já desejemos ser induzidos nesse véu que cobre a percepção das pessoas: ao lado do preconceito dos personagens, criamos os nossos próprios. Dessa forma, Agatha traz para a nossa leitura o que fazemos na vida real: julgar pessoas que nem sequer conhecemos por sua aparência, sua origem ou sua personalidade.

Entretanto, esse preconceito não ressoa em nosso protagonista – e diria até herói da narrativa –, como todo e qualquer herói, o senso de Poirot é muito diferente das demais pessoas. Ele não se deixa enganar pelas aparências e vai, aos poucos, investigando a verdade do crime, a pedido de seu amigo Monsieur Bouc.

Na segunda parte, o crime já ocorreu e a mise-en-scéne, ou seja, a cena já está completamente formada para o nosso deleite. A expressão francesa parece muito bem encaixada quando falamos desse livro de Agatha, não somente por ter falas francesas no decorrer da narrativa e ser uma das línguas em destaque no livro, mas também pelo fato de que tudo se assemelha a um palco, no qual as cenas já estão tão bem-dispostas que é difícil escapar daquela armadilha bem emoldurada. Inclusive, eu prefiro até nomear cada parte da narrativa, embora não seja um texto teatral explicitamente, de atos.

Chamá-los de atos, ao meu ver, demonstra até mais a dinâmica dentro da narrativa do que chamá-los meramente de partes, visto que se tem muito de teatral dentro da história e do próprio texto. A própria escrita leve e simples de Christie, sem deixar de ser metódica, fria – em certa medida – e calculista, faz com que nos envolvamos com cada fato como se estivéssemos vendo uma peça sendo executada, como se Hercule Poirot estivesse em nossa frente nos dando as informações que precisamos para selecionar o caso, bem ao seu lado. 

Além disso, todo o cenário é cercado e muito bem elaborado, dessa forma, os personagens não possuem escapatória e a cena toda se passa em um ambiente: o trem. Não há movimentação de cenário muito recorrente, o que faz com que a história pudesse ser executada muitíssimo bem em um teatro, com os atores bem diante de nossos olhos. Afinal, não existem atores dentro de toda história? A questão é retórica, não se preocupe em respondê-la agora, leia o livro primeiro.     

Logo, voltando ao que devia ser dito, o segundo ato, atrevo-me a dizer, é o momento em que as testemunhas se encaminham para o vagão restaurante, prontas para dizer o que fizeram durante aquela noite para o nosso adorado detive Hercule Poirot, o diretor da companhia, Monsieur Bouc – amigo do belga que protagoniza a narrativa – e o médico grego, Doutor Costantine.

Os personagens como Monsieur Bouc e o Doutor Constantine estão, a todo momento, arranjando assassinos previsíveis a partir de estereótipos já pré-moldados, principalmente, o diretor da companhia, que deseja que o crime seja solucionado o mais breve possível. Em mesma medida, Doutor Constantine tem suas suposições, mas não deixa que elas o levem completamente, visto que sua autópsia demonstra informações inusitadas.

Não espere que as testemunhas dos personagens facilitem alguma coisa, pelo contrário, a depender do ângulo que se observa, você só encontrará mais dificuldades para solucionar o caso. Cada parte desse ato é repleto de informações que completam uma as outras e nenhuma das testemunhas parece não ter álibi. Então, o que fazer?

Em uma rodada mais dinâmica, entramos no terceiro ato, o qual revela informações muito importantes e mais uma rodada – bem mais rápida dessa vez – de interrogatórios com as testemunhas. A dinâmica no final do livro, tal como as próprias perguntas acertadas de Poirot, torna-se mais ligeira, como se o tempo urgisse, no mesmo momento em que o assassino escapa de suas mãos.

Por fim, há o brilhantismo da solução do caso que, talvez, seja tudo que você espera, mesmo que você não perceba isso. De fato, conhecendo cada passo da narrativa, aquela ideia não se torna somente crível, mas torna de você, provavelmente, ao saber de tudo, um cúmplice. Agatha transforma cada um de seus leitores em cúmplices daquele mistério, fazendo com que cada um deles anseie para chegar ao final e descobrir, de fato, quem foi o responsável pelo crime.

   Ao começar o livro, você, sem perceber, entra no trem e fica, ao lado de Poirot, em sua cabine, confabulando, tentando descobrir mais e mais informações sobre o crime – sem conseguir parar. Algumas, você poderá encontrar antes; outras, você somente notará quando o detetive belga as colocar na mesa tal como se colocam cartas em um jogo onde verdade e mentira podem te tomar tudo.

É assim que eu me sinto lendo um livro de Agatha Christie, a Dama do Crime.

 

REFERÊNCIAS

HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Ed. Objetiva, 2001.
CHRISTIE, Agatha. Assassinato no Expresso do Oriente. Tradução de Archibaldo Figueira. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2014.