RESENHA #101: O CANTO DOS VAMPIROS

 

ORGANIZADOR: Richard Dalby
SINOPSE: Drácula, de Bram Stoker, é a mais famosa história de vampiro já escrita, embora não tenha sido a primeira a descrever a malignidade dos mortos-vivos — muito menos a última. Em comemoração aos 120 anos de publicação de Drácula, esta antologia única reúne 25 contos raros escritos entre 1867 e 1940 por autores igualmente geniais, como Sir Arthur Conan Doyle e M.R. James. “Herdeiros de Drácula” é um verdadeiro banquete para todos os aficionados por literatura fantástica e sobrenatural, um delicioso mergulho na história desses seres fascinantes e assustadores.

Em que canto os vampiros se escondem? Como eles são? De que maneira podemos os identificar? E, principalmente, sobreviver a sua sede de sangue ou daquilo de que se alimenta? A antologia organizada por Richard Dalby, um dos grandes nomes no ramo, definitivamente vai te responder isso.

Como todas as demais lendas, as vampirescas sofreram mutações. A priori, surgiram da própria história e passaram a navegar no fantástico e no sobrenatural à medida que as explicações faltavam para a população. Assim, os vampiros nasceram, através da degradação histórica em uma linha direta ao desconhecido.

A coletânea em questão traça, através de 25 contos – a maior parte de origem britânica –, a história da literatura vampiresca no período anterior e posterior ao Drácula, acredito eu, vampiro e livro homônimo mais conhecido do gênero. Dentro da obra, é possível encontrar textos que vagueiam entre o século XIX e XX, inclusive, é necessário dizer que Dalby fez um trabalho excelente ao elencar por datação histórica, o que faz com que a obra traduzida por Flora Pinheiro e Mariana Kohnert seja de extrema importância para qualquer um que queira se aventurar e estudar a evolução de vampiros e a própria produção desse mito.

Com diversos textos e autores pouco conhecidos, ainda mais no Brasil, a coletânea traz diferentes perspectivas do vampiro clássico de Stoker. Encontramos não só humanoides como vampiros, mas também outras espécies e criaturas; as transformações são variadas; e até mesmo a maneira de se alimentar se torna diferente a cada narrativa: às vezes, é sangue; mas também pode ser a alma e a energia.

Há escritores famosos, como Conan Doyle (Sherlock Holmes) e Horácio Quiroga (Contos da Selva) fazendo parte da coletânea, contudo, os contos em si são pouco desbravados por aqui, assim, é interessante perceber a preocupação do organizador de não deixar tais narrativas simplesmente sumirem, inclusive, alguns autores e autoras do gênero.

Eu, particularmente, senti que foi um dos melhores livros que li nesse ano, isso se deve ao fato de ser uma miscelânea literária no seu sentido mais amplo. Por mais que todos os contos trabalhem a mesma temática, há diferenças gritantes entre um e outro quanto à conclusão, à maneira de narrar, à forma de desenvolvimento, entre outros. Alguns são bem óbvios, outros fogem da obviedade. Alguns são mais científicos e outros mais sobrenaturais. Alguns seguem a linha Stoker, principalmente os posteriores, e outros não têm nada a ver.

Há sim alguns contos que não me agradaram de todo, mas algo em cada um deles definitivamente pode ser aproveitado, inclusive, em estudos acadêmicos ou até mesmo para construção de personagens vampiros. Outros, no entanto, deixaram-me fascinada, como O Destino de Madame Cabanel e A Parasita. O primeiro por se tratar do cerne do mito/ da lenda e o terror do desconhecido; o segundo por ser científico e construir a noção vampiresca muito mais similar à realidade cotidiana, embora ainda abuse de parte do sobrenatural.

Além disso, seguindo a noção da construção lendária, é preciso ressaltar outro teor muito forte, tanto no período vigente dos textos como na coletânea em si: a maneira pela qual os contos são narrados. Quando pensamos em uma lenda, sempre temos um interlocutor que diz: “eu ouvi sobre…/ alguém disse que…/ há muito tempo, aconteceu…/ etc.”; esse tipo de princípio narrativo é extremamente popular e corriqueiro, inclusive, traz um gosto especial de uma trama fantasmagórica em uma roda de amigos.

Esse tipo de narrador, quase benjaminiano, constrói uma naturalidade através dessa popularidade presente na literatura comum e do povo, em que narrativas fantasmagóricas e sobrenaturais possuem muito apelo, ainda mais nas cidades e vilarejos em que pouco se tem a ciência. Contudo, esse narrador em especial é louvado e apreciado mesmo nos meios eruditos por ser um narrador por excelência e saber chamar atenção à possibilidade, no momento certo, de que aquilo de fato pode ter sucedido. Muitos dos contos trazem esse narrador em terceira pessoa que tinha um amigo; que tinha uma amante; que tinha um conhecido que, por sua vez, conheceu um vampiro.

Há, claro, aqueles que – mais fortemente – narram em primeira pessoa, há também aqueles que possuem mais de um narrador para comprovar que de fato ocorreu. Quanto mais narradores, quanto mais próximos, mais palpáveis as histórias podem se tornar e é essa palpabilidade que faz os pelos da nuca eriçarem, embora, provavelmente, mais àqueles que as leram em primeira mão.

Seja como documento histórico, seja como literatura prazerosa sobre vampiros, a Harper Collins trouxe uma edição impecável de capa dura que, além de uma diagramação formidável, traz uma ilustração de John Tenniel de 1885. Bonito, sombrio e impecável, a editora se superou.

Agora, sabemos em que canto estão os vampiros e as suas vozes ressoam em uma bela sinfonia.    

 

REFERÊNCIAS

DALBY, Richard (Org.). Herdeiros do Drácula. Tradução de Flora Pinheiro e Mariana Kohnert. 1ª ed. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2017.