RESENHA #100: O QUE SOMOS SENÃO RATOS?

 

AUTOR: Gordon Reece
SINOPSE: Shelley e a mãe foram maltratadas a vida inteira. Elas têm consciência disso, mas não sabem reagir — são como ratos, estão sempre entocadas e coagidas. Shelley, vítima de um longo período de bullying que culminou em um violento atentado, não frequenta a escola. Esteve perto da morte, e as cicatrizes em seu rosto a lembram disso. Ainda se refazendo do ataque e se recuperando do humilhante divórcio dos pais, ela e a mãe vivem refugiadas em um chalé afastado da cidade. Confiantes de que o pesadelo acabou elas enfim se sentem confortáveis, entre livros, instrumentos musicais e canecas de chocolate quente junto à lareira. Mas, na noite em que Shelley completa dezesseis anos, um estranho invade a tranquilidade das duas e um sentimento é despertado na menina. Os acontecimentos que se seguem instauram o caos em tudo o que pensam e sentem em relação a elas mesmas e ao mundo que sempre as castigou. Até mesmo os ratos têm um limite.

De tal modo estou mergulhado no sangue, que,
se não for mais adiante, a volta será tão difícil quanto a travessia

SHAKESPEARE

Há algo na escrita de Gordon Reece que cativa.

Não sei se é a forma com que Shelley e a mãe falam aos leitores, não sei se é a sutileza ferina através da qual os piores detalhes são pintados. Não sei – e é essa incerteza que mais me fascina.

Ratos não foi um livro que apareceu uma ou duas vezes na minha vida. Foram várias as ocasiões em que, indo à livraria, deparei-me com um exemplar da obra de Reece nas estantes. No entanto, sempre havia algum outro livro que eu queria antes, que eu queria mais. Se eu soubesse o que me esperava para além da capa maravilhosa com que nos presenteou a Intrínseca, teria-o comprado bem antes.

Shelley e a mãe estão sofrendo. Acuadas, traumatizadas, sozinhas e fugindo, são como ratos: não querem um lar, não querem conforto. Tudo o que desejam é um lugar onde se esconder e recomeçar, longe de qualquer um dos traumas do passado – seja o divórcio humilhante pelo qual a mãe passou, seja o bullying perverso que Shelley enfrentou. Contudo, mesmo em sua nova toca tão, tão distante, os gatos não desistem de procurá-las. Quando um adentra no seu precioso esconderijo, as duas têm a última das reações previsíveis. Agora, assombradas pelos próprios atos, elas precisam descobrir o que fazer. Afinal…

Se não são mais ratos, o que são?

Mice, nome original da obra, é uma história sobre muitas coisas. Embora a sinopse passe a impressão de que o assunto principal do livro é a atitude tomada pelos ratos, na verdade, ele vai muito além disso. Além de falar sobre bullying, amizade, a falta paterna, as mazelas do matrimônio e do divórcio, o abuso no ambiente de trabalho e o amor incondicional entre mãe e filha; ainda uma história que ensina a respeito da identidade e do que acontece quando nos perdemos dela. Ensina, além disso, sobre limites e até onde uma pessoa suporta antes que ultrapassem o seu.

Ao acompanharmos Shelley e a sua mãe, observamos não duas marionetes do destino, mas duas mulheres cansadas dos papéis que a vida parecia haver-lhes imposto. Duas pessoas tão surradas pela vida que, ao fim, não lhes restava mais nada exceto tentar bater de volta e crescer. Lutar e, talvez, só então, vencer. Nem que seja um pouco. Nem que fosse aos poucos.

Reece não nos entrega uma leitura fácil. Cada página tem o gosto amargo de uma realidade dura de saborear e que, no entanto, é tão necessária que a devoramos como se não comêssemos há dias. Sorvemos cada gole de comparação, cada gota de metáfora, como se precisássemos daquela água. Como se fôssemos ratos cansados de fugir também.

Não sei até que ponto os demais leitores se identificarão com Shelley e sua mãe, não sei até que ponto se sentirão presos ao chalé Madressilva como elas. No entanto, eu acredito no seguinte: ao adentrar no esconderijo aparentemente tão seguro, tão secreto e tão acolhedor, só para vê-lo, em seguida, transformar-se em um pesadelo angustiante, é impossível manter-se apático, mesmo para aqueles que não se sentem ratos. Mesmo para os que são gatos ou para os que não são uma coisa nem outra.

E, assistir ao que vem depois, faz-nos perguntar:

Se não somos ratos, o que somos?

O que a Shelley de depois daquela noite é? No que sua mãe se torna?

Na tessitura das páginas, observamos essa pergunta ser desmembrada – à medida que ambas demonstram aspectos até então desconhecidos de si; conforme descobrem características delas mesmas que as tornam estranhas uma para a outra – sem, no entanto, ser respondida. Assistimos a um amor tão forte, tão poderoso, capaz de sobreviver mesmo ao mais profundo dos horrores. Vemos o crescimento de dois ratos que, se não são mais ratos, o que são?

Embora, até o final, não haja uma resposta única, basta dizer:

São o necessário para sobreviver. Não importa qual seja o preço.      

 

REFERÊNCIA

REECE, Gordon. Ratos. Tradução de Carolina Cairis Coelho. 1ª edição. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2011.