QUER DICA? #07: MITOS EM LORE OLYMPUS

AUTORa: Rachel Smythe
SINOPSE: Perséfone, a jovem Deusa da Primavera, acabou de chegar no Olimpo. Criada no reino mortal pela mãe de pulso firme, Deméter, ela recebe a permissão para viver no mundo dos deuses enquanto se prepara para seguir a vida como uma virgem sagrada. Quando a amiga Ártemis leva Perséfone para uma festa, sua vida muda completamente: lá ela conhece Hades, e o charmoso e incompreendido líder do Submundo desperta nela uma chama. Agora, Perséfone precisa aprender a lidar com as relações e as políticas confusas que regem o Olimpo, enquanto descobre seu lugar e seu próprio poder.

 

O pensamento ocidental foi moldado, em grande parte, graças à cultura greco-romana, desde aspectos filosóficos até jurídicos. Esse pensamento ultrapassou as fronteiras europeias, invadindo – como os próprios europeus – todos os cantos do planeta. Assim, não é de se estranhar que a mitologia mais famosa do mundo seja a mitologia grega.

Essa mitologia adentra o mundo das artes com força desde a Antiguidade, com peças de grandes tragediógrafos do período clássico, como Medeia, até através das pinturas renascentistas italianas. E ela continua se apresentando em peças, em adaptações de rádio, influencia grandes nomes da arte do passado e do presente. Não só os livros, o cinema e os quadros de Museu a apresentam, mas quadrinhos também. Como em Lore Olympus.

Os quadrinhos ganham sua roupagem no final do século XIX, ao menos, nos moldes contemporâneos, através das aventuras de um garoto que vivia nos guetos novaiorquinos. Com uma linguagem muito simples, o autor conseguia tratar diversos problemas sociais da época, da mesma forma que grandes clássicos do gênero, como Sandman. Lore Olympus também cumpre essa função, é claro.

Em meados da década de 1930, no período entre as duas Grandes Guerras Mundiais, houve uma intensificação do nacionalismo não só do lado alemão, mas também do lado norte-americano; e isso foi demonstrado através da criação do Superman, que representava “o homem incrível” que veste as cores da bandeira de seu país. Outros personagens apareceram depois, seguindo uma proposta similar, como Mulher-Maravilha e Capitão América.

Desde o início, carregando as suas bandeiras, os quadrinhos trouxeram críticas assertivas à sociedade e mostraram grande proficiência ao tratar diversos temas, ganhando destaque como obras artísticas muito tempo depois, através do surgimento de obras como Sandman e MAUS, que ganharam prêmios literário e jornalístico, respectivamente.

Contudo, vale destacar que existe uma discussão – muito válida – até hoje que questiona se quadrinho é ou não é literatura. Haverá aqueles que defendem que não, pois ao alegar que quadrinhos são literatura, faz com que as pessoas depreciem a Nona Arte e, somado a isso, pontuam que existe uma diferença de percepção cognitiva, pois há uma mistura de texto com imagem. Por outro lado, há aqueles que acreditam que quadrinhos são literatura, por diferentes motivos, como construto literário e até processo narrativo. Particularmente, concordo que quadrinhos são literatura, mas não pelos motivos previamente destacados, pois você pode encontrar diferentes construtos literários em outras mídias, como o Cinema.

Para mim, quadrinhos são literatura porque texto e imagem são a mesma coisa, ambos são imagens que representam o real. O único ponto que se desassociam é que a nossa língua é transcrita em caracteres fonéticos, muito diferente, por exemplo, dos textos hieroglíficos do passado e os ideogramas apresentados em kanjis que, com o decorrer do tempo, tornaram-se mais abstratos pelo uso contínuo, da mesma forma que abreviamos as palavras da nossa língua (por economia). Assim, a diferença cognitiva está, ao meu ver, na percepção abstrata e concreta da realidade, e não no fato de ambos não serem imagens que são reconhecidas por pessoas inseridas em certa cultura. Texto é imagem, só que abstrata, como ocorre com os textos do Egito Antigo. Quadrinho é literatura, mas moldada em outros termos (e, mesmo se não fosse, eles são incríveis por si só).

Como Lore Olympus. A narrativa de Smythe traz críticas a relações tóxicas, problemas sociais e machismo estrutural. Também apresenta uma narrativa repaginada de Perséfone e Hades, um dos mitos mais conhecidos e interessantes da mitologia grega. Importante e essencial, o mito desse casal influencia outras histórias míticas e seus personagens, principalmente, Deméter. Que tal, então, descobrir dez referências aos mitos gregos em Lore Olympus? Caso queira, também há o vídeo no YouTube!

 

01. PERSÉFONE E HADES

Conhecida como Koré, cujo significado retoma a pureza da mulher jovem, ou seja, da donzela, a filha de Zeus e Deméter nasceu e foi criada no Monte Olimpo, diferente do que é apresentado em Lore Olympus. Assim, além de jovem, ela era considerada muito bonita e, por conta disso, chamou a atenção de diversos deuses. Entretanto, para proteger sua castidade, Deméter a manteve protegida o máximo que conseguiu.

Só que os planos da deusa da colheita não deram certo, pois a jovem foi raptada – isso mesmo, não foi seduzida, ela foi raptada – por seu tio, Hades, o senhor do submundo. Contudo, preciso destacar que há diferentes versões do mito. Na maioria deles, Hades abriu um buraco no chão e sequestrou Koré enquanto ela colhia narcisos; há versões em que Zeus, ouvindo o pedido de socorro da própria filha, finge que não escuta, estando de conluio com Hades; há outras que a responsável pelo amor súbito do deus do submundo é Afrodite; e há aquelas que ele só simplesmente se apaixonou pela sobrinha.

De toda forma, após o sequestro, Deméter não foi mais a mesma, até porque, de origem cretense, as duas divindades partilhavam atributos da Deusa Mãe (as Deméteres), o que afetava, então, sua percepção mítica quando encenada nesse mito. Há versões que ela só apresenta melancolia, sem buscar pela filha; no entanto, na maioria delas, a deusa a procura incessantemente, chegando a pedir ajuda a Hélio ou a Zeus. Como resultado, a agricultura é atingida e, em algumas versões, Deméter não permite que nada cresça até que encontrem Koré. Assim, ao descobrir que a filha estava com Hades, Deméter volta a pedir ajuda, mas, estando fora da alçada dos deuses, por estar no submundo, Hades detém o poder sobre Koré.

Apaixonado e para manter a relação criada, Hades engana Perséfone e faz com que ela coma sementes de romã, que simbolizavam a união amorosa dos dois. O que, num contexto simbólico e metafórico, representa a perda da virgindade/ consumação do matrimônio. Graças a isso, Perséfone – e não mais Koré – se torna a esposa do deus do submundo, que entende a necessidade de manter uma relação saudável também com sua irmã/sogra, por conta da colheita e da agricultura. Dessa maneira, ele permite que Perséfone viva na Terra com sua mãe durante três das quatro estações do ano, no entanto, no inverno, a deusa retorna aos seus braços.

Esse mito tem o intuito de explicar as estações do ano, principalmente, a infertilidade do solo durante o inverno. No entanto, não se limita a apenas esse ciclo, pode também estar associado ao ciclo menstrual. Na psicanálise, fala sobre a perda da inocência ou até a distinção entre consciente (Terra) e inconsciente (Submundo). Vamos para o próximo mito em Lore Olympus!

 

02. PANATENEIA E AS OLIMPÍADAS

Panateneia era uma das grandes festas celebradas na Grécia Antiga para homenagear e honrar a padroeira da cidade de Atenas, ou seja, Atena (e não Zeus). Durante a comemoração, todos os representantes das cidades ao redor iam até lá e participavam das festividades, uma das atividades, por exemplo, eram jogos militares.

Em meados do século VI a.C., surgiram duas variantes dessa festividade que tinha o intuito de trazer a proteção de Atena: as pequenas panateneias, realizadas anualmente em julho; e as grandes panateneias, que aconteciam de quatro em quatro anos, um ano antes das Olimpíadas acontecerem, como um aquecimento.

Os povos áticos homenageavam Atena e sacrificavam animais, faziam rituais religiosos, organizavam saraus e jogos, também tinha concursos de beleza e força (e vale destacar que existiam premiações, fosse em vasos ou dracmas). Era um espaço de celebração e comunhão dos povos gregos, já que também festejava a Confederação de Délos (também conhecida como Liga de Délos, uma organização militar comandada por Atenas durante as Guerras Médicas – e dá pano pra manga também). Vamos para o próximo mito em Lore Olympus!

 

03. A NINFA MINTE

Minte lembra uma palavra em português, você sabe qual é? Se você pensou em “menta”, acertou. Ela era uma ninfa que vivia no Submundo, no rio Cocito (o rio das lamentações), além de ser amante do próprio Hades.

Como amante – e dependendo da vertente do mito, durante o casamento dele com Perséfone –, Minte se gabava e muito de ser a mais bela das ninfas do reino dos mortos, chegando a dizer que seria a próxima rainha. Essa alegação se estendia a Perséfone.

Numa das vertentes, ela acreditava que Hades expulsaria Perséfone, porém, o relacionamento dos dois chegou ao fim quando foi descoberto pela rainha, que exigiu fidelidade do marido. Contudo, na outra versão, o relacionamento de Minte e Hades acabou depois de ele se apaixonar por Perséfone e a raptar. Com raiva, a ninfa teria tentado recuperar o amante e se vangloriado nas costas de Perséfone, dizendo que era muito melhor do que ela.

Em ambas as variantes, Minte é transformado numa planta, a menta. Na primeira, pela rainha do Submundo; na segunda, por Deméter, irritada com a presunção da ninfa de achar que era melhor que sua filha.

Esse é um dos mitos conectados ao rapto de Perséfone. A ideia dele é explicar a importância e o uso da menta nos rituais fúnebres da Grécia Antiga. Ele servia para amenizar os cheiros da decomposição, além de ser um dos ingredientes para a bebida que daria vida eterna em alguns dos ritos. Vamos para o próximo mito em Lore Olympus!

 

04. ODISSEU E POSEIDON

Você já deve ter ouvido falar da Odisseia. Esse épico é um dos marcos mais importantes da literatura grega e narra a história de Odisseu tentando voltar para casa, desesperadamente, após o fim da Guerra de Troia (para saber mais sobre a guerra, basta consultar a Ilíada).

Mas é importante destacar que existem diferentes respostas quanto aos motivos que levaram Poseidon a sentir raiva de Odisseu. A mais famosa delas tem a ver com Polifemo, um ciclope. Filho de Poseidon e da ninfa Teosa, a criatura vivia numa ilha de ciclopes e pastoreava ovelhas. Assim, ao aportar lá, Odisseu e sua tripulação começaram a procurar suprimentos, invadindo a caverna do monstro. Essa invasão fez com que Polifemo fechasse sua caverna com uma pedra e passasse a comer os companheiros de Odisseu.

O herói, por sua vez, engana o ciclope com vinho e diz que “Ninguém” o deu. Bêbado e enganado, Odisseu e seus marujos o cegam. No dia seguinte, cego, Polifemo abre a entrada da caverna para que suas ovelhas possam pastar e, com isso, Odisseu e seus homens fogem debaixo delas. O ciclope grita para os seus irmãos que “Ninguém” havia o cegado e, graças a isso, ninguém lhe dá atenção. Na fuga, Odisseu revela seu nome ao zombar de Polifemo, que retribui com uma pedrada e um pedido a Poseidon: que amaldiçoe o mortal. Assim, Poseidon impede que Odisseu chegue em casa por, pelo menos, dez anos.

Um dos motivos seria porque Odisseu cegou Polifemo; o outro seria porque Odisseu cometeu a hybris, ou seja, a desmedida de ser orgulhoso diante de uma criatura divina. Então, Poseidon teria sentido raiva de Odisseu pelo fato de ter zombado e de ser arrogante com sua prole.

Há também uma versão menos conhecida, cuja teria ocorrido durante o período da guerra de Troia. Palamedes é um dos personagens apagados da história de Homero, mas seu mito chegou a ser encenado durante o teatro trágico. Neto de Poseidon, Palamedes foi um dos guerreiros mais sábios entre os gregos (sendo comparado a Toth, deus egípcio da sabedoria, por Platão), quem fez a organização militar, de suprimentos, além de jogos e a própria criação da escrita.

Odisseu não queria participar da guerra, por isso, fingiu-se de louco. Então, Palamedes foi enviado para checar a informação. Ao chegar em Ítaca, ele desconfiou da legitimidade da loucura e empurrou uma carroça na direção de Telêmaco, filho de Odisseu. Com isso, Odisseu salvou o filho, mas foi obrigado a ir à guerra. Ressentido com Palamedes, tanto por ter sido obrigado a ir para a guerra quanto por seu intelecto, Odisseu planejou destruí-lo. Há mais de uma versão sobre a morte de Palamedes, uma delas teria sido que o herói foi assassinado na beira do mar por Odisseu e amigos; a outra, que explicaria o silêncio de Homero sobre o personagem, é que ele foi considerado traidor. Odisseu utilizou a escrita inventada por Palamedes para forjar provas contra ele. Colocou um saco de ouro e um texto escrito supostamente por Príamo, rei de Troia, agradecendo a ajuda do herói. Odisseu conta aos demais e, ao achar as provas, Palamedes é condenado. Esse mito também faz sentido para o ódio que Poseidon sente por Odisseu, pois o suposto traidor era seu neto e, com os atos do rei de Ítaca, um dos personagens mais inteligentes do mundo grego foi apagado da história. Vamos para o próximo mito em Lore Olympus!

 

05. DEUSAS E O CENTRO DAS ATENÇÕES

Os deuses são muito vaidosos – e isso não é só em Lore Olympus. Demasiadamente humanos, como nos diz Nietzsche. Afrodite, então, nem se fale. Conhecida por sua beleza e por ser a divindade do amor, Afrodite – como outras deusas – adora ser o centro das atenções (Zeus até dá uma alfinetada em Hera a respeito disso). Além da polêmica história de Eros e Psiquê, o fato de deusas quererem ser o centro das atenções causou a guerra de Troia.

No casamento de Peleu e Tétis, pais de Aquiles, os pombinhos resolveram excluir a deusa da discórdia, Éris. Com raiva, ela lança um pomo de ouro na mesa dos convidados do banquete promovido por Zeus. O artefato belíssimo tinha uma frase escrita “para a mais bela”.  Então Atena, Afrodite e Hera resolvem que o pomo pertencia a elas.

E disputam por isso. Pedem para que Zeus seja árbitro, porém, ele se recusa, já que não queria que nenhuma delas descontasse a raiva nele. E proclama um mortal para ocupar essa posição: Páris, também conhecido como Alexandre. Filho do rei Príamo e da rainha Hécuba, foi expulso de Troia e se tornou pastor por conta de um pesadelo de sua mãe (só os gregos entendem essa lógica).

Dito e feito, as deusas subornam Páris. Hera oferece o reinado da Europa e da Ásia; Atena habilidade guerreira e sabedoria divina; e Afrodite, por sua vez, o amor da mais bela mulher, Helena. No entanto, Helena era casada com o rei de Esparta, Menelau, irmão de Agamenon, rei de Micenas e o rei dos reis. Então, você já sabe quem ele escolheu, não é?

Mas, claro, Agamenon vai para Troia por causa das riquezas, Helena foi só uma desculpa mesmo. Vamos para o próximo mito em Lore Olympus!

 

06. EROS E PSIQUÊ

Como em um conto de fadas – e aqui a gente tem uma das inspirações para A Bela e a Fera –, havia três irmãs, filhas de um rei. Todas muito belas, mas uma delas era tão bonita que podia rivalizar com Afrodite, a deusa da beleza e do amor. E isso despertou o rancor da divindade. Ela pede, então, ao seu filho, Éros, que faça com que Psiquê não consiga ser amada por ninguém, assim, sua beleza em vez de causar admiração, passaria a causar medo.

Duas de suas irmãs se casam, mas Psiquê não. Então, o rei envia uma mensagem para o Oráculo de Delfos e pergunta por qual motivo a jovem não conseguia achar pretendentes, por mais bela que fosse. E o Oráculo responde ao rei que a moça deve ser enviada para um rochedo, estando lá, ela se casaria com um monstro. Vestida com trajes nupciais, a moça foi enviada por seu pai para o seu destino. No entanto, Zéfiro, deus do vento Oeste, transporta-a para um belo vale.

Vivendo no lugar mais encantador possível, Psiquê é levada aos aposentos de seu marido, sendo a mais bem amada e tratada das mulheres, pois ele era doce e carinhoso. Contudo, diferente de Lore, Psiquê nunca tinha visto o rosto de seu marido, cuja condição para a relação dos dois era essencial. Se Psiquê o visse, os dois não poderiam mais estar juntos.

Ela concorda até ser tentada pela própria família, quando Psiquê pede para visitar os pais. As irmãs, invejosas de sua felicidade, fazem com que ela desconfie do próprio esposo. Assim, Psiquê leva – em algumas das versões, ela tenta matá-lo com uma adaga – uma vela aos aposentos de Éros. E vê o quanto ele é belo.

Extasiada com a aparência de Éros, a moça não percebe que a cera da vela que segurava cai em seu rosto ou peito (dependendo da versão). Ele acorda assustado, observa que a esposa quebrou a promessa e a abandona. Enquanto Psiquê fica só e infeliz, Éros magoado vai de encontro a mãe. Em algumas versões, ele pede ajuda; em outras, sua mágoa é guardada pra si. Mas o que existe em comum em todas as versões é que Psiquê sofre diferentes tormentos na mão de Afrodite, vingativa por ter seu filho sofrendo.

Ela tenta recuperar o marido de todas as forças, quase morrendo por isso. Psiquê, como A Bela Adormecida, cai em um sono profundo. Ao observar a mulher que ama tão triste e perceber o quanto a ausência dela lhe fazia mal, Éros implora ajuda a Zeus. Ele concede, tornando Psiquê imortal e esposa de Éros.

A relação entre Éros e Psiquê, além de ser readaptada inúmeras vezes, fala sobre a relação da alma (esse é o significado do nome de Psiquê) com o amor (Éros). Na psicologia, tem inúmeras interpretações, podendo se referir as dificuldades e os limites impostos por um casal ou até a mesma relação com o próprio Eu e o Outro. Vamos para o próximo mito em Lore Olympus!

 

07. CASOS INFAMES DOS DEUSES

Nem todos os deuses são grandes safados, mas alguns são. Alguns são a safadeza em pessoa, como Zeus. Zeus é o personagem mitológico com mais filhos e casos amorosos. Ele não poupou, em suas aventuras amorosas, mulheres esperando maridos retornarem da guerra; ninfas transformadas em animais; mulheres trancafiadas debaixo da terra etc. Aliás, vale lembrar da vez que ele se transformou em um cisne para ter um caso com uma mulher… E em chuva dourada… E em touro… Sem contar que ajudou um homem a transar com uma nuvem.

Poseidon também é um personagem mitológico com muitos filhos e diferentes amantes, porém, nada que se compare ao recorde conquistado por seu irmão mais novo. Sério, ninguém se compara a Zeus. Vamos para o próximo mito em Lore Olympus!

 

08. OS GÊMEOS ÁRTEMIS E APOLO

Os gêmeos, filhos de Zeus com Leto, representavam a Lua e o Sol. Ambos foram muito cultuados na Grécia Antiga, embora Apolo tenha ganhado muitos, muitos atributos com o decorrer do tempo. Apolo era deus da medicina, do oráculo, da música e também ganhou o posto de Hélio, deus do Sol. Não obstante, Ártemis era a deusa da Lua, protetora das meninas, da caça, da natureza e da castidade. Mas, em algumas variações míticas, Ártemis já pensou em declinar dessa última função por causa do gigante Órion.

Ártemis, muito jovem, pediu a Zeus que fizesse com que ela permanecesse virgem para sempre, pois ela queria manter sua liberdade. Assim, sua relação mais próxima era com seu irmão Apolo. Contudo, eles dois tinham uma relação próxima com Órion, um jovem arqueiro.

Há diferentes vertentes míticas a respeito da origem de Órion, podendo ser um gigante, um deus menor (filho do próprio Apolo) ou até um mortal. No entanto, o que há em comum em todas essas versões é que ele serviu a Ártemis e se apaixonou por ela. Há versões que o sentimento foi recíproco e outras que não foi.

Na maior parte das versões, a deusa se apaixonou por ele, entretanto, a relação deles não perdurou por causa de Apolo. Considerado exímio caçador e muito bom no arco, Órion e Ártemis formavam uma dupla ótima, ao ponto de Ártemis decidir abandonar sua castidade em prol dele. Contudo, Apolo, embebido de ciúmes, enviou um escorpião para atacar Órion, assim, o rapaz foi picado e ficou paralisado, caindo no mar e ficando apenas com a cabeça para fora.

Apolo desafiou sua irmã a acertar uma flecha numa pedra distante da praia e ela conseguiu, com facilidade, diga-se de passagem, acertar, até que percebeu que aquela pedra era, na verdade, a cabeça do homem que amava. Em desespero, ela roga a Zeus que o salve. Zeus cumpre com o pedido e, então, tanto Órion quanto o escorpião se tornam constelações.

Há outras versões que Órion tenta estuprá-la e é Ártemis quem envia o escorpião, que o mata; há versões que Gaia, a mãe de Órion, envia o escorpião e Ártemis o acerta acidentalmente. Mas, em quase todas elas, Apolo mostra seus ciúmes e exagera na dose, por conta disso, provavelmente, que o personagem é apresentado da forma que é em Lore Olympus. Vamos para o próximo mito em Lore Olympus!

 

09. AMIZADE DE HERMES E APOLO

Apolo pode ser um babaca em Lore Olympus, mas Hermes, na mitologia, também não é fácil. Na verdade, a relação desses dois começa muito conturbada, até porque Hermes rouba e come as vacas sagradas de Apolo.

Hermes vivia em uma caverna, longe de tudo e todos (principalmente de Hera). Ao tentar sair da caverna, ele se deparou com uma tartaruga e, matando-a, produziu um instrumento importantíssimo na cultura grega e no culto de Apolo: a lira. Fez as cordas com tripas de ovelhas e depois de cantar e brincar o dia todo, percebeu que estava com fome.

Perto de onde ele estava e com o Sol se pondo, Hermes encontrou as vacas sagradas de Apolo. Roubou-as e comeu várias delas até ser descoberto por seu irmão mais velho.

De início, Apolo ficou muito confuso com os rastros deixados, o que fez com que ele desconfiasse do irmão mais novo. Apolo vai atrás de Hermes, mas ele – muito esperto – fingiu que estava dormindo e, ao ser acordado, negou o ocorrido. Era apenas um bebê nessa época, veja bem. Assim, o deus do Sol acabou ficando mais entretido do que aborrecido, mas mesmo assim levou o mais jovem até Zeus que, rindo, ordenou que Hermes dissesse logo onde estavam as vacas que ele não havia comido.

O jovem obedeceu, é claro, e Apolo, temendo o futuro, já que o bebê era capaz de tais feitos, tentou assassiná-lo, sem muito sucesso. O feitiço virou contra o feiticeiro, ou melhor, o deus, porque Hermes usou a mesma habilidade para prender as vacas de Apolo. Então começou a tocar sua lira e a invocar as Musas. Apolo ficou encantado com o instrumento e disse que ele valia as vacas perdidas. Depois disso, os dois selaram uma grande amizade – óbvio que Apolo não era besta e pediu para que o irmão mais novo fizesse um juramento, o qual prometia que nunca mais Hermes iria lhe pregar uma peça no deus do Sol. Vamos para o próximo mito em Lore Olympus!

 

10. PLUTÃO E OS ENGOLIDOS

Da mesma forma que Atena era uma ameaça a soberania de Zeus, os filhos de Cronos eram uma ameaça para ele. Assim, Cronos, filho de Urano e Gaia, o mais jovem dos titãs, temia os próprios filhos.

Cronos – e olhe como o mundo dá voltas – destrona seu pai, Urano, e se casa com sua irmã, Reia, e governa por um tempo, até que surgiu uma profecia. Nessa profecia constava que Cronos perderia seu poder e trono por causa de seus filhos. Então, o titã resolve devorar todas as crianças que tinha com Reia. Isso mesmo, ele engole os próprios filhos. E eles estão vivos no seu estômago, diga-se de passagem.

Contudo, Reia, não aguentando mais a perda dos seus filhos (Poseidon, Hades, Hera, Héstia e Deméter), esconde o mais novo em uma caverna na ilha de Creta. Para enganar o marido, a deidade dá a ele uma pedra embrulhada em um pano. Zeus, diferente dos seus irmãos, consegue crescer, libertar os titãs e, auxiliado por eles, faz Cronos vomitar todos os seus irmãos.

Então, deuses e titãs se unem para expulsar Cronos do Olimpo. Ao expulsá-lo, Zeus e seus irmãos se tornam imortais. E Zeus, como seu pai fez – exatamente, veja só –, casa-se com sua irmã, Hera.

 

O QUE É INTERESSANTE EM LORE OLYMPUS?

 

Repleto de referências, Lore Olympus traz uma narrativa madura e intensa sobre uma jovem que busca a própria identidade, sem saber muito bem o que esperar da vida graças a uma mãe controladora. Visualmente, é muito bonito, embora não seja completamente original (os deuses coloridos já estavam presentes em Hércules, no ano de 1997). Também há símbolos subvertidos e momentos conturbados. Por isso, preciso enfatizar que essa leitura deve ser feita de forma cuidadosa, pois pode gerar alguns gatilhos.

 

REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Volume 1. 4ª edição. Petrópoles: Editora Vozes, 1988.

______. Mitologia Grega. Volume 2. Petrópoles: Editora Vozes, 1987.

HERÓDOTO. História. Tradução, introdução e notas de Mário da Gama Kury. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1988.

HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Estudo e Tradução de Jaa Torrano. 2ª edição. São Paulo: Iluminuras, 1991.

HOMERO. Ilíada. Tradução de Carlos Alberto Nunes. 5ª edição. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.

________. Odisseia. Tradução de Carlos Alberto Nunes. 5ª edição. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.

PLATÃO. Fedro. Edição bilingue, traduzida por José Cavalcante de Souza. São Paulo: Editora34, 2016.

SMYTHE, Rachel. Lore Olympus: volume 1. Tradução de Érico Assis. 1ª ed. Rio de Janeiro: Suma, 2022.