QUER DICA? #03: CAIXA DE PÁSSAROS

 

Depois de meses de espera, no dia 21, a Netflix Brasil finalmente liberou a adaptação cinematográfica do livro Caixa de Pássaros. Com Sandra Bullock no papel de Malorie, o filme nos mostra outra perspectiva sobre a obra de Josh Malerman, focando em pontos distintos dos apresentados no livro. Pensando nessa diferença, decidimos elencar onze aspectos que foram alterados durante a transformação da obra literária em roteiro. Vamos conferir juntos?

 

01. A GRAVIDEZ E O PAPEL DA IRMÃ NA VIDA DE MALORIE

 

O livro começa com a descoberta da gravidez de Malorie. Sua irmã, Shannon, tem o papel essencial no processo de aceitação da protagonista em relação ao bebê que está a caminho. A obstetra como é apresentada, inclusive, não existe. Já no filme, o papel de Shannon (que na adaptação se chama Jéssica) é secundário e muito breve. Além disso, Malorie já está grávida há alguns meses quando tudo começa. O contato de Shannon com as criaturas e seu consequente suicídio é outro ponto que deve ser abordado.

No livro, isso se dá de forma processual e sutil, tanto é que Malorie é pega de surpresa quando a encontra morta no banheiro, após se matar com uma tesoura. No filme, tudo é bem vertiginoso e explícito, uma vez que temos a mudança nos olhos de Jéssica e seu subsequente suicídio, jogando-se diante de um caminhão.

Por fim, no livro, as irmãs moram juntas. No filme, elas moram separadas.

 

02. OS PERSONAGENS DO ABRIGO, SEUS NOMES E SUAS PERSONALIDADES

 

No filme, muitos personagens tiveram seus nomes, suas histórias e suas personalidades alterados em relação à obra original. Charlie, por exemplo, não existe no livro. Ele, na verdade, traz características que pertencem a Gary, como o desejo de manter registros escritos a respeito da situação apocalíptica que todos vivem; como também teorias mitológicas – que são configuradas somente na adaptação cinematográfica -, fazendo relações com seres como Surgat, da mitologia cristã; Huli-jing, da chinesa; Puca, dos celtas; etc. Já no livro, as teorias surgem a partir de George, dono da residência, que consultava um livro antigo para descobrir respostas; Gary também traz teorias conspiratórias para dentro do abrigo, quando menciona o que havia passado consigo, sem dizer que ele era o causador dos infortúnios.

No livro, aliás, a loucura de Gary é muito mais sutil, inclusive porque há um questionamento que paira sobre si e que é mantido justamente por essa sutileza: o de se ele é realmente louco ou se ele é o único são. Entretanto, na adaptação cinematográfica, a insanidade de Gary se torna muito óbvia, porque ele é apresentado como alguém peculiar, quase lunático, desde o princípio.

Com relação ao Tom, na obra original, sua história é diferente. Ele perdeu a filha de oito anos, vendo-a sucumbir de perto. Isso dá a entender, inclusive, que ele é um homem mais velho do que aparenta Trevante Rhodes, o ator que o representa no filme. Na adaptação, por sua vez, a perda é incerta e diz respeito à irmã e aos conhecidos que ajudou durante a sua estada na guerra do Iraque. Não há qualquer menção a esposa ou filha.   

Outro personagem que é muito diferente é Douglas, que, no livro, chama-se Don. Douglas, na adaptação cinematográfica, além de casado, tende – na percepção de Malorie – a ser muito parecido com o seu pai que, diferentemente do livro, é divorciado da mãe dela. Don é aquele que salva o dia, no filme, pois consegue impedir parte das atitudes de Gary. No entanto, na obra original, embora no início ele seja contra a presença do homem lunático, pouco a pouco, torna-se seguidor dele e é a pessoa quem auxilia Gary no dia do massacre, por acreditar no que é contado.

 

03. O ABRIGO INICIAL

 

No livro, Malorie toma conhecimento do abrigo, onde fica nos primeiros cinco anos, através de um anúncio no jornal, mas inicialmente não vai até ele; ela só o procura depois do suicídio da irmã. No filme, por sua vez, ela é resgatada por acaso por uma residente desse refúgio (ou seja, lugar que não era preparado para tal, servindo para esse objetivo devido à própria sequenciação dos acontecimentos).

 

04. AUSÊNCIA DE CENAS/ PERSONAGENS: O CASO DOS ANIMAIS

 

No livro, os animais também são afetados pelas criaturas. Inclusive, o grupo residente do abrigo tinha um cachorro, chamado Victor, que acaba se matando depois de ter contato com os seres; ademais, há outra cena: quando Malorie e as crianças estão no curso do rio, os pássaros começam a cometer suicídio. No filme, nada disso é explorado.

 

05. EXPLORANDO A INSANIDADE

 

Uma das coisas mais interessantes no livro é que há uma dicotomia entre sanidade e insanidade, porém ela é menos enfática por conta da loucura dos animais, já que a percepção de mundo deles é diferente e não temos como comparar cognições dessa maneira. Contudo, no filme, pela ausência das cenas de animais morrendo (tópico anterior), os roteiristas, o autor e Eric Heisserer, optaram por explorar gangues de pessoas insanas – algo que não está presente no texto original.

 

06. AS CRIATURAS, AS PESSOAS E AS VOZES

 

No livro, as criaturas são rodeadas de muito mais mistério do que no filme. Tanto é que não se sabe o que as pessoas veem antes de se matar, nem o que sentem, exceto, é claro, a necessidade de cometer suicídio. Para que o leitor se sinta inquieto e ansioso, a visão – considerado o sentido fundamental pela nossa sociedade – e, consequentemente, as imagens são o ponto crucial da aflição gerada pela a narrativa, até porque o constante silêncio das criaturas é um dos picos de tensão principais do livro, havendo sempre a expectativa de que algo ocorra – algum barulho as denuncie; mas a única coisa que todos possuem é o eterno vazio da incerteza.

No filme, diferentemente da obra original, o roteiro recorreu ao subterfúgio visual – próprio do cinema – para indicar quando as pessoas entravam em contato com as criaturas, como as folhas dançando no ar diante da presença delas e a alteração anormal das pupilas ao observá-las. Outra distinção crucial é que, ao estar próximo desses seres, os indivíduos em contato – sem necessariamente vê-las – passaram a escutar vozes de conhecidos, amigos, amantes, etc. Como pontuado, nada disso ocorre no livro que, essencialmente, prioriza e focaliza somente a visão como gatilho.

 

07. O FURTO DO CARRO

 

No filme, o grupo dispõe de um carro, que utiliza na primeira incursão para fora do abrigo, na busca de suprimentos. Logo após retornarem, dois dos residentes fogem e levam o carro no processo, deixando o resto dos abrigados sem meio de transporte para sair. No livro, no entanto, esse furto do carro nunca ocorreu, tanto é que, após os acontecimentos finais, quando Malorie já está sozinha, contando apenas com a companhia das crianças e do cachorro, ela usa o automóvel para buscar recursos.

 

08. O DIA DO MASSACRE

 

Em relação ao livro, o filme traz a cena do dia do massacre de forma bem diferente, inclusive, o impacto gerado por ela ganha outro tom. Primeiro de tudo, na adaptação, nem todos morrem no dia em que – na obra original – Malorie ficaria sozinha com dois bebês recém-nascidos. As mortes também são muito diferentes, muito mais leves do que foram quando escritas, pela primeira vez, por Malerman.

Enquanto, no livro, por exemplo, Olympia se enforca com o cordão umbilical, o filme abranda a situação com uma saída mais leve. O mesmo acontece com Cheryl, dessa vez, em uma versão idosa.

Outra mudança é a presença de Douglas que impede os avanços de Gary, no livro, o personagem que o simboliza acaba sendo morto e nada faz para impedir. Essa é a diferença crucial para que Tom permaneça vivo na adaptação cinematográfica.

 

09. OS PÁSSAROS COMO ALARME E A DESCIDA PELO RIO

 

No livro, apenas o grupo, formado por Malorie e os demais residentes do primeiro abrigo, usa os pássaros como alarme. O aviso no rio, citado por Rick, dono do abrigo para o qual Malorie agora ruma, é dado por uma espécie de megafone que soa um toque de tempos em tempos. Além disso, todo o caminho é percorrido no curso do rio.

Já no filme, os personagens tiveram que andar até o abrigo e passar por riscos com as criaturas – que parecem até dóceis na obra original, por mais que causem problemas aos seres humanos e outras espécies -, o aviso – ao contrário do que ocorre no livro – é emitido pelos pássaros que vivem dentro do Instituto, demonstrando que o conhecimento a respeito da função deles é geral.

 

10. ESCOLHER ENTRE AS CRIANÇAS

 

Há uma cena crucial em que, para chegar ao refúgio de Rick, Malorie precisa olhar o curso do rio para que possa guiar o barco até o caminho correto. Entretanto, há uma diferença entre a execução no filme e no livro.

Enquanto na obra original de Malerman não há dúvidas de que ela seria a escolhida para olhar o perigo – ao ponto de ter que enfrentar uma criatura para isso -, no filme, a personagem parece tentada a escolher uma das crianças para tal tarefa, na verdade, por mais que justificasse suas motivações, Malorie claramente parecia preferir que a Garota fosse a incubida da tarefa, demonstrando, por vezes, a preferência pelo Garoto, que é o seu filho biológico. Inclusive, no final, há todo um conflito a respeito disso.

 

11. RELAÇÃO ENTRE MALORIE E TOM

 

A relação entre Malorie e Tom, no livro, nunca foi concretizada como romântica. Na realidade, o relacionamento dos dois intercambia entre amizade e algo a mais, porém, nunca ultrapassa essa linha, até porque Tom morre no dia do massacre organizado por Gary, deixando Malorie sozinha com as duas crianças. Entretanto, no filme, as coisas são um pouco diferentes, porque ele não morre e os dois começam a ter um relacionamento amoroso. Além disso, mesmo antes do dia do massacre, Tom constantemente flertava com Malorie descaradamente.

O personagem em si também é diferente do apresentado no livro, principalmente, pelo fato de não ter uma filha e, muito menos, não ter a visto morrer. Dessa forma, a dinâmica entre os dois muda completamente. Contudo, o que torna tudo muito distinto entre obra literária e cinematográfica é o fato dele permanecer vivo e dar assistência a Malorie e as crianças até pouco antes do momento em que elas começarão a sua viagem para o Instituto, o refúgio dentro do caos.

 

É preciso ressaltar que grande parte das mudanças feitas para a adaptação cinematográfica tem a ver com o fato de se tratar de um filme, que não conta com certos recursos presentes na escrita. A elaboração de um roteiro deve levar em consideração que a história será, sobretudo, visual. Por isso, por exemplo, a necessidade de tornar claro o momento de contato com as criaturas. Além disso, a duração de um filme e o seu ritmo são distintos dos de um livro.

No geral, o trabalho de Susanne Bier, a diretora, e todos os demais membros envolvidos na filmagem resultou em uma adaptação que, apesar de focar em aspectos que o livro não aborda tanto – como o lado emocional da história – é um trabalho que cumpre o que promete: uma história bizarra, um tom angustiante e algumas boas reflexões.