RESENHA #160: O JOGO DA PERSUASÃO

AUTORA: Jane Austen
SINOPSE: O romance se passa na Inglaterra rural, no início do século XIX. Anne Elliot, filha de Sir Walter Elliot, um vaidoso e esnobe baronete, apaixona-se por Frederick Wentworth, um jovem inteligente e ambicioso, mas sem tradições ou conexões familiares importantes. Por esse motivo, é persuadida pela família a romper com ele. Oito anos depois, Anne pensa com mais autonomia e maturidade e o destino fará com que seu caminho e o de seu grande amor se cruzem novamente.

Embora a vida de Jane Austen não tenha tido muitos altos e baixos, nem mesmo polêmicas, há algo que permeia sua obra constantemente: o casamento. O matrimônio e as suas consequências são temas caros para a escritora inglesa, famosa por obras como Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade, por conta de sua história pessoal.

A única situação que poderíamos nomear como fofoca da vida da autora é o fato de ela ter se apaixonado por um rapaz sem posses, no entanto, por conta de posição social e riqueza, ter sido proibida a contrair matrimônio. No final, não se casar com ele afetou gravemente a percepção de Austen em relação a tudo a sua volta e fez dela a escritora que conhecemos hoje.

Assim, num quê um tanto autobiográfico, encontramos Persuasão. Essa obra não foi publicada enquanto Jane Austen estava viva, sendo considerado um romance póstumo por conta disso. Talvez a escritora nunca tenha querido mostrar ao mundo uma trama que era tão parecida com a sua em muitos aspectos, tal como os dois pedidos de casamento não aceitos – o do rapaz que amava e de alguém considerado ideal por todos a sua volta.

Embora eu tenha algumas ressalvas com alguns pequenos trechos e aspectos apresentados no decorrer da história que não têm tanto sentido, como um capitão não saber lidar com uma situação de risco, há muito nessa obra quanto ao posicionamento crítico e desenvolvimento narrativo.

De uma escrita ímpar e limpa, Austen consegue dosar muito bem o quanto coloca em seus textos, sem exagerar em descrições. Todas elas possuem um intuito claro de apresentar a realidade do período e os personagens, desde seus trejeitos a suas posses. Com isso, ela é capaz de modelar o seu período histórico e como funcionava as relações sociais, principalmente nos salões, trazendo críticas ao Estatuto de Westminster e tanto a pompa quanto a decadência da nobreza.

Numa época em que o amor não importava ao matrimônio, a escritora mostra que as diferenças de classes sociais eram ainda mais acirradas. Um homem da nobreza se apaixonar por uma mulher rica e fora do círculo social dos “sangues azuis” era possível, mas nada era possível quando o assunto era voltado à liberdade feminina. Assim, outra vez, Austen demarca a posição da mulher, mostrando o quanto elas podiam menos em todos os aspectos, a menos que fossem capazes de persuadir.

Nesse jogo de persuasões, entram os valores desenvolvidos no decorrer do romance, bem como o ideal feminino e quanto raramente as mulheres possuem de fato a felicidade conjugal, buscando sempre a segurança acima da experiência de ser quem são e de poderem sonhar.

A edição da editora Zahar contém duas novelas, o primeiro texto de Austen, Lady Susan, e a novela Jack e Alice. As traduções da Fernanda Abreu seguem bastante a sintaxe original, algumas vezes optando por uma tradução semântica. A capa é dura e o design segue o padrão clássicos Zahar, contendo um excelente texto de apresentação de Ricardo Lísias e notas de rodapé.

REFERÊNCIA

AUSTEN, Jane. Persuasão. Apresentação Ricardo Lísias; tradução de Fernanda Abreu. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.