ENTREVISTA #03: MATHEUS ZUCATO

 

 

ENTREVISTA MATHEUS ZUCATO

 

01: Como e quando você descobriu que queria ser escritor?

R.: Nunca descobri que queria ser escritor, na verdade. Desde a adolescência, sentia que precisava expressar meus pensamentos e sentimentos de alguma forma artística, encontrei na música e na literatura essa possibilidade. Então passei a escrever poemas e depois de muitos anos tentei escrever uma novela. O pessoal gostou. Então, sugeriram para mim a ideia de uma publicação e, de repente, eu me tornei um autor publicado.

 

02: De onde surgiu a ideia de Os dois fazendeiros?

R.: Eu havia sido desafiado a escrever uma história. Era um presente. Então, eu precisava de uma ideia. Demorou um pouco, foi durante uma carona para a cidade em que estudo (ainda sou universitário), enquanto meus colegas escutavam música sertaneja raiz, surgiu a ideia de escrever sobre dois fazendeiros orgulhosos que queriam matar um ao outro.

 

03: Por quanto tempo você se preparou para escrever essa ideia? Quais foram as suas maiores dificuldades e o que você achou mais fácil durante o processo de escrita?

R.: Eu tive cerca de 4 meses para escrever a história, pois tinha um prazo, já que era um presente. Então, tive que me organizar (sentar e escrever logo). As maiores dificuldades foram deixar a história coerente; escrever de forma cativante e inovadora; e não deixar nenhuma “ponta solta”, para que a história tivesse um mínimo de qualidade. As facilidades: nenhuma. Escrever é muito difícil, cansativo e demanda tempo e paciência, mas o resultado final (uma história sua escrita em livro) é recompensador.

 

04: Cidade da Fé, cidadezinha onde o enredo se passa, é um lugar fictício. Ela foi inspirada em uma cidade real?

R.: Isso. A história tinha de se passar em qualquer cidadezinha cujo nome denotasse um povo supersticioso, além disso, tinha de ser uma cidade pequena do interior sul-mineiro. Em minhas viagens até Itajubá (onde estudo), sempre passo perto de uma pequena cidade chamada Maria da Fé, famosa pelo frio e pelos azeites. Daí veio a ideia de dar o nome para a cidade do livro de Caminho da Fé.

 

05: Durante a história, você trabalha muito a ideia do místico através da narração de acontecimentos um tanto quanto curiosos. De onde tirou inspiração para criá-los?

R.: Todas as histórias de “horror rural” do livro foram construídas para remeter aos ‘causos’ que os tios, os pais e os avôs mineiros contam quando estamos na roça e eles querem nos impressionar. Da mesma forma que na vida real, deixo para que o receptor das histórias decida se acredita ou não nelas, o que determina o caminho que a história do livro toma.

 

06: Os Dois Fazendeiros é uma história bastante insólita e que abre margem a várias interpretações. No começo da escrita, você já tinha em mente que tudo se desenrolaria daquele jeito ou foi se delineando enquanto escrevia?

R.: No começo, seria apenas uma história do fazendeiro “vencedor” contando como matou o adversário. Durante a escrita, pensei na possibilidade de instigar mais à imaginação do leitor e fazê-lo pensar e questionar a história do livro (e a si mesmo), quando terminasse de ler. Eu estava na página 40, e aí apaguei a história inteira e comecei novamente.

 

07: Quais as suas maiores influências literárias? De que maneira elas influem na sua escrita?

R.: Eu amo literatura clássica, mas também gosto de bons autores atuais. Meu estilo preferido é a literatura de cunho mais introspectivo, psicológico e que se passe em um único ambiente ou o mínimo possível de diferentes ambientes, de forma a explorar mais o ser humano e menos o cenário. Posso citar alguns dos nomes que mais me influenciam atualmente: Franz Kafka, Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Machado de Assis, Julio Cortázar e Edgar Allan Poe. Não posso deixar de fora a influência que tive do livro As Relações Perigosas, de Choderlos de Laclos, um livro espetacular escrito todo em forma de várias cartas.

 

08: Algum autor ou livro específico inspirou Os Dois Fazendeiros?

R.: Acho que posso dizer que Machado de Assis me inspirou a intenção de instigar o leitor, enquanto Choderlos de Laclos me inspirou o formato com o qual a história foi escrita.

 

09: Como você vê o crescimento do mercado editorial brasileiro?

R.: Atualmente vivemos um momento triste para a literatura nacional. As livrarias estão fechando as portas ou pedindo recuperação judicial, editoras se tornando apenas prestadoras de serviço e não influenciando a cultura literária, etc. O mercado editorial não vai bem, ele está bem estagnado, mas com a retomada da economia, acredito que as coisas melhorem. Também cabe ao brasileiro dar mais valor à literatura, seja no formato físico ou digital. Por fim, cabe ao escritor brasileiro fugir do óbvio, escrever bem e influenciar de maneira positiva a literatura nacional.

 

10: O que você mais gostou de trabalhar em Os Dois Fazendeiros (assunto ou personagem favorito)?

R.: Acho que o mais legal foi mostrar a história dos pontos de vista de personagens diferentes e, com isso, instigar o leitor a decidir seu próprio desfecho da história. Gosto de trabalhar com a mente do leitor.

 

11: Há uma disputa ideológica entre dois personagens no livro, você prefere – como escritor – algum dos dois?

R.: Não, nenhum dos personagens é meu preferido.

 

12: O que você julga como o grande diferencial de seu livro?

R.: Acredito que seja a forma como foi escrito: relatos com uma linguagem não muito simples e que faça o leitor pensar (não dar tudo mastigado ao leitor).

 

13: Você anda trabalhando em novos projetos, certo? Pode falar um pouco a respeito deles?

R.: Sim. Tenho um romance (não-romântico) histórico que demanda muita pesquisa e acredito que ficará pronto somente no ano que vem. Além disso, tenho escrito contos e participado de concursos literários com os mesmos. Recentemente terminei um livro de contos chamado Realidades Rompidas, que está concorrendo no Concurso Sesc de Literatura.

Também tive dois contos publicados, há um mês, na antologia de contos de terror e suspense ambientados em países orientais, chamada “Kowai”, pela editora Wish. Pela mesma editora, sairá um conto meu numa nova antologia, essa de contos feministas que se passam na Era Vitoriana.

 

14: Qual dica você daria para os escritores iniciantes?

R.: Para os iniciantes, persistam. Procurem aquela editora que mais se adequa ao seu estilo de escrita. Também vale uma dica muito importante: sejam diferenciados. Ousem mais. Não se limitem ao “arroz com feijão”, ao clichê. Escrevam histórias diferentes e únicas. Para isso, é necessário que os novos escritores também criem o hábito de ler histórias fora do comum, para que sua imaginação seja fertilizada com ideias peculiares, que não sejam aquilo que já estamos cansados de ler.

 

Por último, gostaria de agradecer pela oportunidade de conversar um pouco com os leitores e desejo boas leituras a todos e boa sorte para quem quer começar a escrever e publicar livros. Um forte abraço a todos!

 

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