CRÍTICA #22: PERSUASÃO E ROMANCE DE ÉPOCA

 

SINOPSE: Anne Elliot foi persuadida a não se casar com um homem de origem humilde. Oito anos depois, ele reaparece. Será que ela vai aproveitar essa segunda chance de amar?

 

DIRETOR: Carrie Cracknell (2022)
GÊNERO: Romance, Época, Comédia
DISTRIBUIDOR: Netflix | EUA

 

Recentemente, li um texto que falava a respeito das adaptações de Jane Austen. Ao que tudo indicava, o autor culpabilizava, ou melhor, responsabilizava o fandom das obras da escritora pelos filmes serem tão mal aceitos pelo público. Isso, claro, nós podemos perceber com o filme de 2005, de Orgulho e Preconceito, dirigido por Joe Wright, que ninguém gosta (alta dose de ironia).

O que o autor esqueceu de comentar, ao defender Persuasão – a adaptação de Carrie Cracknell –, é que Jane Austen não é Julia Quinn. E Persuasão (o livro), a obra mais madura, sensível e semiautobiográfica da escritora, para além de não ser algo similar à Bridgerton, não é uma comédia. Muito menos o sofrimento da personagem, como apresentado na adaptação.

Austen é a mãe, digamos assim, dos romances de época, visto que suas obras adentram ao que entendemos como romance/comédia de costumes. Somado a isso, ela é caracterizada desse jeito porque, para além dos hábitos sociais da Era Georgiana, suas histórias tentavam recriar o laço comercial do casamento através de uma relação pautada em amor. Então temos personagens como Darcy e Lizzy, entre outros, que encarnam os vícios e os problemas sociais (orgulhos aqui, preconceitos lá) e, ao mesmo tempo, tentam unir pessoas que passam a se gostar verdadeiramente.

Mas Jane Austen não faz romances de época, e sim romance de costumes e, se não formos muito específicos, romance. Seus textos se passam na época que ela escreveu, viveu e conviveu. Estou destacando isso porque há características muito modernas/contemporâneas nos romances de época, já que eles basicamente pegam o cenário e enfiam várias cenas sexuais. Isso não é um problema, porque os romances de época foram feitos para as gerações atuais.

E existe uma diferença grande nisso. Nossa geração é mais empoderada, com maior liberdade sexual e, desculpem-me os fãs desse estilo, a maioria dos escritores não está preocupada em fidelidade ao período (quem liga para o Segundo Estatuto de Westminster?). Pelo contrário, se puderem fugir o máximo possível – para que caiba empoderamento e coisas afins, para eles, é até melhor.

E isso, de novo, não é uma crítica ao estilo, mas o que Jane Austen produz é muito diferente do que é produzido nos romances de época, até pelo fato de a própria Austen ter sido crucificada por feministas e pré-feministas, como as irmãs Brontë, pelo fato de suas personagens icônicas não trabalharem ou procurarem se sustentar, afinal, “a verdade universal” está relacionada ao matrimônio.

Sendo assim, não tem como dar certo adaptar uma obra de Austen, a mais dramática por cima, como se faria com uma obra de Julia Quinn. Com isso, quero dizer que o maior erro da adaptação foi tentar reproduzir o sucesso feito em Bridgerton. Colocar cartas com smiles, quebra da quarta parede com tragicomédia ou enfiar um coelho aleatório em uma cena: não combina com a obra.

Dito isso, posso fazer minha segunda crítica: não é porque você faz uma obra do passado ser representativa, ou seja, colocar atores de diferentes raças, que o arcabouço histórico deve ser jogado no lixo e, ainda pior, transformar a trama em uma comédia sem sentido. A impressão que eu tive – e posso estar errada, se estiver, mil perdões – é que toda a modificação feita nessa adaptação tem um tom debochado, pois já que “vai colocar representatividade que não existia, por que não colocar pessoas se pegando no meio da rua”? E o que mais me chocou, verdade seja dita, foi que eu fiquei chocada e os transeuntes não.

Nos livros de Austen, não tem nem beijo. E a história começa e termina com os protagonistas se beijando. Então, essa adaptação poderia aprender muito, e muito bem, com Orgulho e preconceito de 2005, que segue com a maior fidelidade possível a obra canônica. E, se não for nem tentar ser fiel, faz mais sentido fazer algo como 10 coisas que eu odeio em você, adaptação incrível e contemporânea de Megera Domada, de Shakespeare.

Entretanto, nem tudo na vida é uma perda completa – ainda que o roteiro possa ser desprezado em 98% (talvez, 99%) –, já que a adaptação melhora um aspecto da obra original. Ao menos, no meu ponto de vista. Austen tem a – para mim, péssima – mania de fazer triângulos amorosos em que um dos personagens é um completo salafrário.

Ela faz isso, numa explicação lógica, para fazer com que o pretendente da protagonista não soe tão problemático e incômodo quanto ele é (porque a sociedade é problemática e Austen criticava isso). Dessa maneira, a adaptação acerta em fazer o primo de Anne mais carismático e coerente com a realidade. Na verdade, tão mais carismático – e isso se deve a atuação, sobretudo – do que Wentworth.

As cenas mais delicadas foram destroçadas, o período histórico foi arremessado no lixo e, ainda por cima, Anne – uma cópia fiel da tristeza eterna de Austen – se transformou numa boba sem sentido. Para além disso, as falas empoderadas do filme são jogadas aleatoriamente, porque não combinam com o tom da obra. E, o que fez menos sentido para mim, foi ver uma menina que se joga de cara no chão ser madura o suficiente para ter uma conversa adulta com a protagonista sobre o homem que elas estão interessadas.

Por isso, se você quiser defender esse filme, está tudo bem, todos podemos encontrar prazer nas coisas mais estranhas (guilty pleasures), mas não fale que é culpa do fandom (e não estou aqui para defendê-lo), porque parece que você foi pago pela Netflix para elogiar isso.

 

REFERÊNCIA

AUSTEN, Jane. Persuasão. Apresentação Ricardo Lísias; tradução de Fernanda Abreu. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.