CRÍTICA #21: O HOMEM QUE RI

 

SINOPSE: Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) trabalha como palhaço para uma agência de talentos e, toda semana, precisa comparecer a uma agente social, devido aos seus conhecidos problemas mentais. Após ser demitido, Fleck reage mal à gozação de três homens em pleno metrô e os mata. Os assassinatos iniciam um movimento popular contra a elite de Gotham City, da qual Thomas Wayne (Brett Cullen) é seu maior representante.

 

DIRETOR: Todd Phillips (2019)
GÊNERO: Drama
DISTRIBUIDOR: Warner Bros. | Canadá; EUA

Eu achava que minha vida era uma tragédia,
mas agora percebo que é uma comédia.

 

Qual é o impacto de uma risada? O riso, diferente da lágrima, geralmente, representa a felicidade, a alegria. Tal como as máscaras teatrais, o rosto feliz corresponde ao gênero comédia; enquanto, em contrapartida, a face triste simboliza a tragédia. Coringa é literalmente isso, a mescla entre a comédia e a tragédia – ora uma, ora outra e, no final, as duas juntas como uma só –, tudo isso em uma estrutura de roteiro de tirar o fôlego e uma atuação impecável de Joaquin Phoenix em que o riso é, acima de tudo, a lágrima.

Embora poucas pessoas saibam, o personagem icônico das histórias do Batman foi criado e baseado em uma narrativa de Victor Hugo, o grande escritor francês. A obra se chama O Homem que Ri, tendo como protagonista Gwynplaine, um menino que sempre sorria, mesmo quando não queria, porque uma condição o fazia sorrir. Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) é uma figura atormentada por distúrbios psicológicos e é incapaz de impedir a própria risada em momentos de grande tensão, mostrando a referência literária que se assemelha e se afasta do romance francês.

No entanto, por muitas vezes, graças a performance brilhante do ator, é possível perceber que a risada estrangulada não passa de uma dor dilacerante do próprio personagem, fazendo com que os espectadores tenham a ciência – através da própria atuação – de que o riso é sinônimo de dor. A vida, nesse momento, para Arthur Fleck, é uma tragédia sem fim.

Todd Phillips (Cães de Guerra) traz uma direção louvável e, talvez por um saudosismo da minha parte, impecável. Cada aspecto técnico do filme, os quais pude notar, são bem elaborados, os cenários e o figurino são de tirar o fôlego e casam muito bem com o que o roteiro do próprio Phillips e de Scott Silver (O Vencedor) desejam transmitir.

Acima de tudo, o que mais me encantou na produção foi a sua ambiguidade e a sua fidelidade com o vilão mais famoso da DC Comics, inclusive, a sua “origem” mais conhecida, A Piada Mortal, de Alan Moore. Tanto quanto o quadrinho, o filme dirigido por Phillips representa a perspectiva do personagem-protagonista, o próprio Joker, que, em inglês, possui algumas acepções que mostram a não-confiabilidade dele: Joker não é só a brincadeira ou brincalhão, mas também um resultado invertido de uma ação e um truque para tirar proveito de alguém ou de algo.

Tanto é que, como o próprio personagem comenta, em A Piada Mortal, ao falar a respeito de seu passado:

 

Foi assim que aconteceu comigo, sabe… Bem, eu não tenho certeza absoluta… Algumas vezes me lembro de um jeito. Outras vezes, de outro… Se eu vou ter um passado, prefiro que seja de múltipla escolha!

 

O filme deixa em aberto muitas coisas, bem como toda a narrativa. O roteiro primoroso elenca os aspectos tradicionais do personagem, entretanto, dando-lhe voz de uma maneira nunca vista, nem mesmo com Moore. Se Coringa já gritava nos ouvidos do Batman como a injustiça e a loucura eram cernes do homem e precisava de somente “um dia ruim pra reduzir o mais são dos homens a um lunático”, Phillips e Silver denotam que não é necessariamente só um dia, mas toda uma vida de tropeços, derrotas, percalços e, acima disso, apagamento social.

Equivalente ao personagem dos quadrinhos, Arthur demonstra – de maneira marginal e visceral através de sua perspectiva – como Gotham, fictícia e real ao mesmo tempo, pode ser todas as cidades do mundo. Ela segue padrões nocivos, a saber, o fato de seus cidadãos serem submetidos a uma elite enquanto muitos passam fome, denotando que os ricos transformam os pobres em “palhaços”; o desgaste social a partir da metáfora dos ratos; a falta de assistência social aos que possuem problemas; a falta de empatia; e, obviamente, a loucura humana ocasionada por consecutivos problemas diários.

Mas seria, de fato, loucura?

Murray (Robert de Niro), ao saber quem era Arthur, questiona as suas motivações, colocando em cheque o fato de que os seus distúrbios e os seus problemas não são motivo suficiente para que ele cometa crimes. Contudo, em um padrão avesso, as pessoas culpabilizam Arthur pelas revoltas populares. Ora, se as pessoas não podem agir através dos seus próprios problemas, mas a partir de exemplos, o que isso quer dizer a respeito de Gotham e de nós mesmos, ainda que a revolta se dê por um desgaste político e econômico da própria localidade e não, de fato, por um único indivíduo?

A revolta, inclusive, ocasiona problemas terríveis a Gotham e seus cidadãos, até mesmo para Bruce Wayne que, na trama, ainda é uma criança. Contudo, no momento em que uma figura do Coringa ganha o destaque de herói – no sentido filosófico de presença marcada e necessária em uma revolta –, as pessoas o culpam por seus próprios atos. Por que, continuamente, as pessoas responsabilizam outros por suas próprias atitudes? Qual é a motivação acerca disso, se não a preocupação inata em se manter em um status quo? Quando e como as pessoas perdem a culpa por seus atos e os atos passam a ser culpa de outros? 

Coringa é um filme que retrata violência, mas a maior violência da película é no trato psicológico. Arthur Fleck possui problemas. Seus problemas soam muito maiores do que quaisquer outros – e talvez seja propositalmente assim, numa ascensão traumatológica como as escadas que sobe quando finalmente se torna livre para ser quem é – e a sua vida muito terrível, cercada por pessoas pouco empáticas. A falta de empatia é uma das maiores marcas do filme, pois, como ele mesmo relata: “você tem problemas e as pessoas esperam que você não demonstre isso”.

Esse é um dos agravantes sociais mais nocivos dos últimos tempos, não só a falta de empatia, mas o próprio fato de que as pessoas evitam mostrar a si mesmas e as suas deficiências, compactuando com redes sociais que tendem a dizer que você precisa ser feliz, mesmo quando tem pensamentos negativos. Você precisa seguir os padrões, porque, caso contrário, será excluído. Isso – infelizmente – é um traço verdadeiro do nosso cotidiano, em que as relações se tornaram – e ainda se tornam – cada vez mais instáveis, como tantos outros que ele elencará no decorrer da história e nos arrastará para o seu abismo pessoal. Contudo, deve-se frisar que toda a narrativa é parte da perspectiva apresentada pelo próprio Coringa, assim sendo, pouco confiável.

É necessário destacar alguns aspectos da obra, a saber, as figuras de linguagem apresentadas, todas as metáforas são absolutamente fantásticas: os ratos, os palhaços, as escadas. Todos os jogos de cena podem ser descritos como incríveis, desde a ascensão pela a escada até a queda da moral usando o mesmo artificio; as situações demonstradas recaem sobre as suas palavras constantemente, como o fato de uma morte não ser engraçada, mas o desespero para fugir dela, quando você tem uma limitação, ser. Um momento de tensão se torna uma piada, assim, as máscaras teatrais se fundem.

Confesso que há muito mais o que falar e cada pedaço apresenta algo a ser debatido, seja no campo político ou individual. Entre as cenas apresentadas no decorrer da construção da história, ainda que todas tenham me encantado ao ponto da ojeriza, a melhor e mais esclarecedora sobre o teor do filme é a inicial. Quem é Arthur? Essa cena responde. Quais são os seus problemas? Ela diz. O que ocorre com Gotham? Também está lá enquanto ele olha para a própria imagem e tenta sorrir, mas seu rosto murcha.

Assim, a risada acontece.

Em seguida, uma lágrima escorre.

Por causa da empatia pelo oprimido, a risada e a lágrima são difíceis de ver, mas, inevitavelmente, necessárias.  

 

REFERÊNCIAS

MOORE, Alan. Batman: a piada mortal. Arte de Brian Bolland. Prefácio Tim Sale. Tradução de ArteComics/DVL. São Paulo: Panini Books, 2011.