CRÍTICA #17: A LENDA DE AQUAMAN

 

SINOPSE: Filho do humano Tom Curry (Temuera Morrison) com a atlante Atlanna (Nicole Kidman), Arthur Curry (Jason Momoa) cresce com a vivência de um humano e as capacidades metahumanas de um atlante. Quando seu irmão Orm (Patrick Wilson) deseja se tornar o Mestre dos Oceanos, subjugando os demais reinos aquáticos para que possa atacar a superfície, cabe a Arthur a tarefa de impedir a guerra iminente. Para tanto, ele recebe a ajuda de Mera (Amber Heard), princesa de um dos reinos, e o apoio de Vulko (Willem Dafoe), que o treinou secretamente desde a infância.

 

DIRETOR: James Wan (2018)
GÊNERO: Ação, Aventura e Fantasia.
DISTRIBUIDOR: Warner | Austrália, EUA

Enquanto muitos preferem lembrar das referências maldosas aos poderes de Arthur Curry (Jason Momoa), como a habilidade de falar com animais marinhos, concepção gerada pelo público após a série Super Amigos, eu, por minha vez, prefiro enfatizar algo fundamental nessa adaptação cinematográfica – voltada à concepção presente em Os Novos 52, relançamento de toda a linha da editora –  que são as múltiplas referências a lendas e a literatura.

Arthur Curry, definitivamente, torna-se o Rei Arthur. 

O que me mantem apaixonada pela DC Comics, principalmente pelo selo Vertigo, são as constantes conexões com o mundo real, a partir de mitos, lendas e contos maravilhosos. Por exemplo, com a Mulher Maravilha, encontramos as amazonas; Clark Kent nada mais é do que uma metáfora ambulante de Jesus Cristo; o Batman, o próprio Zorro; Arthur Curry, dessa vez, é nosso lendário Arthur, rei de Camelot, no entanto, trocou o reino mais justo de todos por Atlântida, o reino afundado citado por Platão. 

O mais incrível é que, além da referência clara ao Rei Arthur – o rei bretão que expulsou os anglo-saxões e conseguiu unir os diversos povos que ali viviam em uma única bandeira, a do dragão –, há outras citações incríveis e brilhantes que vieram direto da mente de escritores extremamente famosos, como Jules Verne e Carlo Collodi. Inclusive, a narrativa do filme, a partir da perspectiva do protagonista, começa com uma citação explícita a uma das obras do autor francês. E, como uma fanática por textos literários, eu não pude me impedir de sorrir ao ver Viagem ao Centro da Terra e As Aventuras de Pinóquio sendo explicitamente apresentados e representados.

Embora, como todo filme de herói da atualidade, haja um pouco do mesmo de sempre, nesse filme podemos observar aspectos que, aos meus olhos, fizeram Aquaman ser uma espécie de filme único no meio de grandes adaptações dos quadrinhos, como efeitos visuais únicos e discursos políticos voltados para o meio ambiente, sem ignorar outras críticas. Sem sombra de dúvida, esse longa me encantou pelo mesmo motivo que sai fascinada de Pantera Negra (2018): um vilão que pelos meios errados, acredita/quer fazer o justo.

Orm (Patrick Wilson) é um personagem multifacetado e muito bem conduzido pelo ator que já fez parte do elenco de um dos melhores filmes de heróis que já existiu, Watchmen. O Mestre do Oceano é um personagem racista, até mesmo com outros atlantes de origens diversas, mas que acredita em uma união – mesmo que forçada – dos povos aquáticos para dominar a superfície. Contudo, o seu argumento é muito válido, ele precisa acabar com a humanidade que polui os oceanos.

Confesso que acho difícil ir contra um argumento tão claro e tão justo – o que não quer dizer que é certo – quanto esse, no entanto, como todo antagonista que possui um discurso que faz sentido, os seus atos contrariam a sua lógica e ele perde a razão. Mesmo que seus motivos sejam plausíveis e seus atos questionáveis, há muito mais no personagem do que meramente o ódio à poluição, algo muito mais familiar e que faz outra referência clara a literatura: Hamlet, de Shakespeare.

Inclusive, a referência a Hamlet não se centra somente na figura do irmão de Arthur, Orm, mas também em outro personagem da narrativa, o famoso vilão Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II), que deseja vingar seu pai como o próprio Hamlet gostaria de fazer com o tio, além de ser um gancho para a próxima adaptação do personagem como protagonista. Essa bipartição de uma das peças mais famosas do mundo é extremamente interessante para mostrar como Arthur se desenvolve como pessoa e, ao mesmo tempo, passo a passo, um rei justo e digno para Atlântida, a sua Camelot.

Nesse ambiente subaquático, fundamental para a narrativa porque é onde se centra a disputa pelo poder, há um charme pitoresco e uma miscelânea de cores que pode cansar os olhos enquanto simultaneamente deslumbra o telespectador. Sendo assim, os maiores charmes do filme são os efeitos visuais, os animais ocasionais e as lutas extremamente bem coreografadas, inclusive muito bem dirigidas por James Wan.

Por mais que o filme seja longo, eu não senti o tempo passar, sempre interessada em observar como a Jornada do Herói de Campbell se desenvolvia, tendo Mera (Amber Heard) mais como mentora do que o próprio Vulko (Willem Dafoe), embora tenha sido ele que ensinou Arthur sobre o mundo de sua mãe e também a sobreviver, durante a adaptação em si. Por conta disso, podemos observar que a personagem não é somente o par romântico do protagonista, mas sua mentora e a principal peça que faz Aquaman aceitar quem é, aceitar o seu chamado da aventura. Por isso, inclusive, não me incomodou o desenvolvimento um pouco forçado da relação dos dois como um casal, pois havia muito mais em jogo em cada situação.

A atuação de Jason Momoa, de fato, parece que não existe, visto que Arthur Curry – na minha concepção – soa muito como o próprio ator, o que o fez parecer extremamente à vontade no papel e transparecer isso para o público. Foi surpreendente porque geralmente ele é mais bonito e calado do que dono de uma atuação impecável.

Esse filme é uma mistura de gêneros e ideias que envolvem o mundo desde a Antiguidade até os dias atuais, utilizando artifícios como a busca incessante por poder; a traição de reis, rainhas e súditos; e, principalmente, o poder que a tradição possui, ainda mais em pessoas e povos antigos, um propulsor para ultranacionalismos e preconceito. Além de tudo já mencionado, aborda temas como poluição, riscos ao meio-ambiente por causa de poluentes e lixo, supremacia racial e relações familiares.

Entretanto, o filme também é sobre momentos, amores e paixões impossíveis ou imprevisíveis, retrata muito bem como é se sacrificar por aqueles que se ama, dedicar-se àqueles que lhe tiraram coisas e viver por uma vingança, relata – no meandro romântico ao familiar – o que é ser herói, acima de um rei, é uma lenda que precisa ser contada

 

REFERÊNCIAS

JOHNS, Geoff. REIS, Ivan. PRADO, Joe. Aquaman, os Novos 52. DC Comics, 2015.