CRÍTICA #16: O CONFUNDUS LIVRO-FILME

 

SINOPSE: Newt Scamander (Eddie Redmayne) reencontra os queridos amigos Tina Goldstein (Katherine Waterston), Queenie Goldstein (Alison Sudol) e Jacob Kowalski (Dan Fogler). Ele é recrutado pelo seu antigo professor em Hogwarts, Alvo Dumbledore (Jude Law), para enfrentar o terrível bruxo das trevas Gellert Grindelwald (Johnny Depp), que escapou da custódia da MACUSA (Congresso Mágico dos EUA) e reúne seguidores, dividindo o mundo entre seres de magos sangue puro e seres não-mágicos.

 

DIRETOR: David Yates (2018)
GÊNERO: Aventura e Fantasia.
DISTRIBUIDOR: Warner | Reino Unido, EUA

Definitivamente, eu fiquei confusa.

Como se um feitiço tivesse sido lançado justamente para me atordoar, o segundo filme da série Animais Fantásticos foi a mistura exata do que acontece quando um livro – ou escritor – não está preparado para ir em direção à tela dos cinemas.

Sabe quando reclamamos – e com razão – sobre a fidedignidade de algumas obras literárias no cinema? Às vezes, é impossível retratar a realidade de um livro dentro de duas horas e meia de filme, logo, o roteirista e a direção – ou os produtores – precisam decidir quais cenas são necessárias para a coesão e coerência do que será exibido, exatamente como acontece com uma redação, no entanto, muitas vezes, erram. Quando pedimos mais do original, nossas reclamações não são infundadas , porém pode ser que – ao desejar tanto alcançar o original – os envolvidos falhem.

Em Os Crimes de Grindelwald, há dois problemas enormes que acabam por desencadear os menores. O primeiro é, sem dúvida, ser feito por uma escritora que não se adaptou aos moldes do gênero roteiro; o segundo é o desejo de alcançar referências da obra original – Harry Potter – e errar no percurso. Erros imperdoáveis como usar Accio em uma criatura viva, o que ainda não fez sentido para mim.

No entanto, mesmo erros como Minerva McGonagall aparecendo antes da hora não me incomodam tanto, o que mais me incomodou foi a confusão de detalhes em um filme que deveria ser a introdução de uma jornada contra o antigo mal do mundo da magia. Sabe-se que esse é um filme prequel, ou seja, recontando o passado de uma história da qual já conhecemos o futuro, contudo, além de ser uma prequela, é também uma fundamentação narrativa. Explicando em outras palavras, o propósito de Animais Fantásticos 2 era nada mais e nem nada menos do que introduzir melhor Grindelwald, Dumbledore e todo o caos que o mundo da magia sofreu antes de Voldemort surgir. Mas foi mais uma massa confusa de personagens, personalidades e situações coerentes ou não do que de fato essa introdução tão aguardada e comentada.

Há personagens, por exemplo, como Nagini (Claudia Kim), que mais parecem uma referência do que uma pessoa. Ela tem algumas situações interessantes, uma construção até boa de personalidade se levarmos em conta o implícito narrativo, porém, mal dá para perceber isso por conta da falta de espaço.

O mesmo ocorre com o desenvolvimento de Jacob Kowalski (Dan Fogler), o fraco cômico e o incômodo trágico da narrativa por conta de sua relação com Queenie Goldstein (Alison Sudol) – o que me faz perdoar essa frágil e incongruente aparição nesse filme é a importância da legilimência – habilidade mágica capaz de extrair sentimentos e lembranças de memória de outras pessoas – da bruxa mais para frente (bem óbvia, diga-se de passagem).

Somente com esses dois personagens, recordando-se dos demais e suas aventuras, como Credence (Ezra Miller) buscando sua identidade, Grindelwald (Johnny Depp) querendo seguidores e Dumbledore (Jude Law) tentando encontrar respostas com a ajuda de Newt Scamander (Eddie Redmayne), já temos uma miscelânea enorme de narrativas – além de outros personagens –, tramas e subtramas para serem desenvolvidas. E, definitivamente, duas horas de filme não são nem de perto suficientes.

Dessa forma, senti que, por mais que segredos surgissem ou fossem resolvidos (pouquíssimos, diga-se de passagem), nada foi desenvolvido. Alguns segredos ainda nem sequer fizeram sentido para mim, na verdade.

Com tudo isso, ainda acho que Animais Fantásticos 2 merece certa atenção do público por conta da mensagem política que passa. Mesmo que peque – e muito – com o roteiro, há algo nele de fundamental importância: uma pseudo-mensagem política de união quando, na verdade, deseja excluir. Há a questão de segregação que soa tal como o nazismo (alemão), principalmente, em relação à questão racial dos não-majs ou, o nosso adorável nome para os bruxos britânicos, trouxas. Depp, por incrível que pareça, não repete a fórmula caricata de sempre – embora seja caricato à medida – e traz um personagem forte e com intenções que conhecemos bem, ao menos, os que estudaram a história da Segunda Guerra Mundial.

Outros atores conseguem destaque, como Law e Redmayne, o primeiro – com poucas cenas – pode trazer suspiros aos seus já fãs enquanto o segundo, por sua vez, repete o carisma de Animais Fantásticos 1, para quem gostou, irá se deliciar com sua presença de novo, sendo o personagem dele quem tem o melhor desenvolvimento da narrativa.

Entre as características mais marcantes desse filme – e o melhor que ele pode proporcionar – encontram-se a cena introdutória, em que magia e efeitos especiais brincam com seus olhos, aliados a uma ação de tirar o fôlego; os efeitos visuais que estão impecáveis e deslumbrantes (até onde percebi); e o figurino que transita com a evolução – pouca – dos personagens, merecendo ganhar, na minha humilde opinião, o Oscar (de novo).

O último aspecto – e que dá, em parte, título a narrativa – é a aparição dos animais fantásticos e a sua importância. Com efeito visual incrível, detalhamento e estudo de mitologia impecáveis, J.K. traz, direto do Livro das Canções, um Zouyu (ou Zouwu), que tem grande espaço e graciosidade durante a trama; tanto um kappa que – infelizmente – desaparece com o Arcanus (o que me deixou triste já que o circo mal ganha espaço durante o filme, logo, não se iluda) quanto um Kelpie, de mitologia celta, também sem muito aprofundamento e sentido; e Pelucio, essencial – o mais dentre todos até agora – para o futuro desenvolvimento desse universo, embora quase ninguém tenha percebido isso.

Eu confesso que continuo confusa, mas não me nego a ficar curiosa em como J.K. irá emendar as pontas soltas e desenvolver o resto do enredo que, para mim, valeria mais se fosse produzido como série e não como filme de cinema.  

 

REFERÊNCIAS

ROWLING. J.K. Harry Potter. Série completa. Tradução de Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2015.