CRÍTICA #15: AO EMPODERAMENTO

 

SINOPSE: Baseada nas histórias em quadrinho do Archie Comics, a bruxa adolescente Sabrina ganha espaço agora no universo compartilhado de Riverdale. Aqui, essa famosa personagem ganha uma versão muito mais sombria.

 

DIRETOR: Roberto Aguirre-Sacasa (2018)
GÊNERO: Drama, Fantasia e Terror.
DISTRIBUIDOR: Netflix | EUA

Nossa língua é arreigada de religiosidade, como falantes do português, sabemos muito bem que invocamos a nossa adorável divindade, ou nossas adoráveis, afinal, somos plurais, para quase tudo na vida. Mas e quando invocamos o Demônio?

Na nova série da Netflix, vamos ver uma oposição linguística, antes de mais nada, e extremamente interessante, em que se invertem valores e jargões populares, como “Rezar para Satã” ao invés de ser para Jesus, entre tantas outras falas que competem com a primeira temporada da série Lúcifer, uma recente aquisição do canal de streaming.

Aproveitando-se dessa onda em que há uma inversão religiosa, a Netflix trouxe para nós um clássico da televisão, no entanto, um pouco diferente da sua última versão. Outrora, mais especificamente no século passado, conhecemos Sabrina, a aprendiz de feiticeira, e seu adorável gato Salem – de adorável, nem tanto – e vimos muitas de suas aventuras, porém, todo o cenário e ideia eram bem mais alegres e vívidos, isso porque a nova série não é baseada na antiga, mas na versão em quadrinhos Chilling Adventures of Sabrina.

Muito diferente da série clássica, O Mundo Sombrio de Sabrina pode ser um choque tanto ruim quanto bom, pois a ideia não é copiar o antigo, mas inovar ao ponto de surpreender até nos aspectos mais tenebrosos, sem se apoiar em jump scares (a famosa técnica de susto rápidos); para os leitores dos quadrinhos, é possível encontrar muitas diferenças logo de cara, algumas boas – confesso – e outras nem tanto. Por exemplo, Sabrina ganha Salem ainda muito jovem e Ambrose tem duas cobras como familiares que sequer existem nessa nova versão, o que me deixou extremamente triste já que elas são incríveis.

Ao nomear o Ambrose (Chance Perdomo), preciso destacar e muito a presença do personagem, ele é divertido e um excelente amigo da protagonista, a nossa adorável Sabrina (Kiernan Shipka), além de ter um arco incrível que deve ser aprofundado na próxima temporada, a respeito da sua prisão domiciliar e o quanto isso o afeta cotidianamente.

A protagonista apresenta uma atuação fantástica, em que conseguimos sentir o que ela pensa a partir de movimentos sutis, por muitas vezes, espontânea e, outras, apática, a atriz consegue fazer bem o papel de uma adolescente que está dividida entre dois caminhos a seguir, entre a Luz e a Noite.

Outros atores também tiveram uma atuação ótima e até arcos muito mais explorados do que nos quadrinhos ou na série clássica, o que dá a essa adaptação recente um brilho a mais. As tias Hilda (Lucy Davis) e Zelda (Miranda Otto), ao contrário das versões impressas, tiveram mais participação e destaque como mães de Sabrina e até entre elas em si, ainda que elas possam se comunicar telepaticamente nas HQs.

Até mesmo os personagens humanos como Harvey (Ross Lynch), mais nerd do que atleta, Roz (Jaz Sinclair), mais amiga do que rival, e Susie (Lachlan Watson), que veio para personificar ideologias e problemas de aceitação, tiveram mais destaque ou passaram a existir como si mesmos nessa adaptação. O que mostra que a primeira temporada de Sabrina é a respeito dos personagens, antes de ser um desenvolvimento narrativo por si só.

Toda a temporada é baseada em três premissas fundamentais: o desenvolvimento de cada um dos envolvidos com a protagonista e até da própria Sabrina; uma crítica mordaz e extremamente sensata sobre a lucidez quanto a religiosidade e, por último, não menos importante, sobre empoderamento feminino.

Como Prudence (Tati Gabrielle) fala, o Diabo não daria “liberdade e poder, porque ainda é homem”. Essa fala tão pontual dentro de uma série que trabalha a liberdade feminina – a maioria do elenco sendo composto de mulheres – e a capacidade de conseguir isso com as próprias forças nos dá a entender uma metáfora quase que completa diante dos nossos olhos, essa que só se finalizará com as vontades de Sabrina, ou a sua dualidade, sendo colocadas em cheque.

Será que ela, uma moça que conhecemos aos dezesseis anos, terá força de enfrentar Satã? Qual é a força das bruxas? Elas não são as representações máximas de nós, feministas, que falamos sempre que somos suas descendentes? Sabrina é uma série que quer nos mostrar isso.

Claro que nem tudo são flores em uma série que promete nos fazer ficar apaixonados, por exemplo, e por sorte, ela não depende dos efeitos especiais, que são bem fracos para uma produção da Netflix. Outro aspecto incômodo, e espero que venha a ser solucionado nas próximas temporadas, diz respeito aos desfechos de arco: alguns arcos possuem encerramentos parciais fracos e outros sequer voltam a ser mencionados. Como é uma série, eu tendo a acreditar que há de acontecer mais coisas em breve que me faça morder a língua.

Entre as mudanças mais impactantes, para mim, entre a nova série e os quadrinhos foi a presença dos pais de Sabrina na vida dela e como eles eram. A mãe de Sabrina foi enganada por Edward Spellman, algo que, no decorrer da série, parece plausível, entretanto, a garota se recorda de como são os seus pais (ao contrário da série da Archie Comics que a bruxa não sabe nada sobre sua mãe). Tudo isso me soou muito confuso por contas das referências primárias, mas talvez as adaptações estejam mais próximas uma da outra do que suponho agora.

Outra mudança muito surpreende e de tirar o folego envolve a professora Mary Wardell (Michelle Gomez), já famosa por seu papel em Doctor Who, trouxe ainda mais vivacidade e importância para sua personagem. Entre todas as atuações, definitivamente, Michelle foi a mais cativante e incrível. Suas expressões, seus gestos e a sua manipulação, sem sombra de dúvidas, mostram que sem um vilão de qualidade não há como ter uma série fascinante.

Entre todos os episódios, devo confessar que o quinto, Dreams in a Witch House (Sonhos de Bruxa, na tradução da Netflix), foi sem sombra de dúvida o mais envolvente e também o mais explicativo quanto a construção do enredo da primeira temporada de O Mundo Sombrio de Sabrina, embora ele possa soar um pouco desconexo em relação aos demais, Dreams in a Witch House  mostra os maiores sonhos e os mais terríveis pesadelos em um único momento, o que nos leva aos dois extremos da felicidade e do horror completo, dando ainda mais destaque para esse segundo.

Essa é uma série de uma adolescente empoderada e, ao mesmo tempo, isso pode ser sombrio para muitos homens, ou demônios.

 

REFERÊNCIAS

AGUIRRE-SACASA, Roberto. HACK, Robert. Chilling Adventures of Sabrina. New York: Archie Horror, 2014.