CRÍTICA #14: OUTRA PERSPECTIVA

 

SINOPSE: Solitário, infeliz e buscando um novo amor na internet, Drácula é surpreendido com um presente da querida filha Mavis: férias em um cruzeiro. Lá, ele se encanta pela comandante Erika, que, por sua vez, esconde um segredo nada amigável.

 

DIRETOR: Genndy Tartakovsky (2018)
GÊNERO: Animação, Família e Comédia.
DISTRIBUIDOR: Sony Pictures | EUA

Devemos admitir que, dentro da literatura e do cinema, constantemente, vemos fórmulas sendo repetidas inúmeras vezes, seja na execução de certo fio narrativo ou até mesmo na ideia central da trama em questão; chamamos esse processo de repetição de ideia e composição de clichê.

Mais de uma vez, falamos sobre clichês por aqui e todos devemos admitir que ser clichê não quer dizer ser ruim – embora muitas pessoas acreditem no contrário – pois só pode ser clichê uma fórmula que deu certo. E, infelizmente, há aqueles que se esquecem disso e pontuam obras que seguem padrões comuns como ruins, de pouca qualidade ou fracas.

Eu, particularmente, não consigo concordar com essa perspectiva, principalmente, quando tratamos de um filme cujo tema central fala sobre a nossa forma de ver e sentir o mundo, a nossa percepção que – por vezes – é limitada por nossos preconceitos ou pelas crenças que outros impregnaram em nós. Inclusive, devo ressaltar que dizer isso de forma didática em um filme infantil é extremamente difícil.

O filme Hotel Transilvânia 3: Férias Monstruosas é um clichê com roteiro óbvio – para nós, adultos –, voltado quase que exclusivamente para o público infantil por causa de sua previsibilidade. Ao menos, é o que nos parece quando olhamos a superfície dessa narrativa.

Primeiro, o que me faz realmente elogiar essa franquia é a ideia proposta desde o filme lançado em 2012, há seis anos atrás: a mudança de percepção sobre o sobrenatural (já mencionada aqui), em que o que era terrível na Idade Média passou a ser fantástico para nós na contemporaneidade, nós nos apaixonados por aquilo que temíamos.

Segundo, porque adapta clássicos da literatura do horror e da ficção científica, como Drácula, Frankenstein e o Homem Invisível de maneira que os personagens podem ser apresentados para um público mais jovem sem todo o peso que as obras em si apresentam, em uma recriação e recreação, ao mesmo tempo.  

Terceiro, e não menos importante, trabalha acepções de amor (no plano familiar e romântico), preconceito, perspectiva e aceitação de forma que – para uma criança – seja compreensível a multiplicidade dentro do mundo e, para um adulto, uma quebra de barreiras sociais.

Nessa continuação, por exemplo, além de abordar todos esses temas conhecidos da franquia, como preconceito e aceitação, o filme também trabalha a solidão daquele que perdeu alguém; como a perspectiva de uma pessoa preconceituosa influência nas demais pessoas que o cercam, mostrando que somos moldados pelo meio em que vivemos e, por mais que sejamos, podemos sair desse ciclo vicioso de ódio ao desconhecido. Além disso, também temos pais cansados e o uso das redes sociais como forma de encontrar alguém, a mais mecânica maneira de se conhecer o tchan.

Nesse novo cenário com novos personagens, podemos perceber que há piadas muito mais voltadas para o nosso cotidiano do que fora dele, todas as cenas, por mais que pareçam desconexas, têm um propósito de nos conectar que só é perceptível no decorrer do filme, como a introdução demonstra: um casamento no hotel, com ênfase no ofício de dj e em um cachorro fazendo bagunça.

Entre os aspectos mais sutis do filme, devo pontuar a peculiar participação do puppy, o filhote adotado por Dennis, pois é ele que estará diretamente conectado às emoções dos personagens: os momentos de euforia, temor e, acima de tudo, o desejo de proteção. No entanto, especificar esses detalhes seria um spoiler e não é certo com quem ainda irá assistir o filme.

Hotel Transilvânia 3 é leve e divertido voltado para o público infantil e, ao contrário de outras adaptações cinematográficas, a terceira continuação da franquia permanece mantendo a qualidade, embora não saia do tema geral – relações familiares e aceitação do diferente – e nem inove o suficiente para nos surpreender. É um filme que usa monstros para trazer as verdadeiras monstruosidades à tona.

 

REFERÊNCIAS

MENDES, Paula Viana. Por que não magia?: a sedução contemporânea pelo mundo mágico de Harry Potter. São Paulo: Annablume, 2008.
TARTAKOVSKY, Genndy. Hotel Transilvânia. EUA: Columbia Pictures, 2012.
TODOROV, T. Introdução a Literatura Fantástica. Perspectiva, 1981.