CRÍTICA #13: UM BOM FILME RUIM

 

SINOPSE: San Francisco, Estados Unidos. Eddie Brock (Tom Hardy) é um jornalista investigativo, que tem um quadro próprio em uma emissora local. Um dia, ele é escalado para entrevistar Carlton Drake (Riz Ahmed), o criador da Fundação Vida, que tem investido bastante em missões espaciais de forma a encontrar possíveis usos medicinais para a humanidade. Após acessar um documento sigiloso enviado à sua namorada, a advogada Anne Weying (Michelle Williams), Brock descobre que Drake tem feito experimentos científicos em humanos. Ele resolve denunciar esta situação durante a entrevista, o que faz com que seja demitido. Seis meses depois, o ainda desempregado Brock é procurado pela dra. Dora Skirth (Jenny Slate) com uma denúncia: Drake estaria usando simbiontes alienígenas em testes com humanos, muitos deles mortos como cobaias.

 

DIRETOR: Ruben Fleischer (2018) 
GÊNERO: 
Ação e Ficção Científica. 
DISTRIBUIDOR: Sony Pictures | EUA

 

Existem filmes bons e que nem sempre nos agradam, existem filmes que são péssimos e nos tiram sorrisos. Venom, baseado no personagem vilanesco da Marvel Comics, é aquele tipo de filme ruim, mas tão divertido, que você prefere fingir que os furos não estão lá, embora eles sejam escancarados.

A maior questão nesse filme para mim foi a falta do Peter, muito embora nós, que somos fãs, saibamos do contrato feito entre a Sony e a Disney – cinco filmes usando o nosso herói do bairro –, soa muito esquisito não ver o contraponto entre o Peter e o Eddie, que é levado ao estatuto de antagonista do herói porque o odeia. 

Nesse filme, Eddie Brock (Tom Hardy) não tem como odiar o Homem-Aranha até porque, aparentemente, o herói não parece existir naquele universo, visto que em nenhum momento é citado. Outro fator interessante é que sem o Parker, não há alguém em quem Brock jogar seus problemas e insatisfações, nem o seu ódio ou suas frustrações por tudo estar dando errado.

Eu gostei de algumas adaptações do Venom e do próprio Eddie Brock, como personagens, embora eu tenha muito mais afeto pela primeira versão apresentada nos quadrinhos. No entanto, é impossível negar – como adaptação e sequência separadas – os muitos problemas na estrutura narrativa, pois podemos ver erros de linha temporal, de coerência, entre outros.

O erro que mais me incomodou – e ao mesmo tempo me fez rir –  foi a mudança de personalidade do Venom, de uma criatura vinda do espaço com o objetivo de destruir a Terra para o amiguinho e conselheiro amoroso do jornalista covarde. A questão é que histórias de heróis são extremamente populares nos dias de hoje, ainda mais quando levadas para o cinema, logo, nós nos tornamos muito mais exigentes em relação a essas narrativas e soa um tanto absurdo Venom não ter se preocupado com esse aspecto, da mesma forma que aconteceu com Suicide Squad (em português: Esquadrão Suicida).

Venom decepciona e muito tanto nesse como em outros quesitos.

Contudo, eu ri muito graças à bipolaridade e à própria relação – que, para mim, é o ponto positivo do filme e seu melhor aspecto – entre os dois protagonistas da trama. Brock é um personagem covarde que, mesmo assim, quer mudar a vida das pessoas através do seu ofício como jornalista, ele é um homem realmente gentil com os outros, embora tenha feito coisas que não deveria.

Venom, por sua vez, é um simbionte – que ao contrário dos quadrinhos não teve nenhum confronto com o Peter – levado, junto aos seus companheiros (algo inusitado), para o laboratório Vida. A personalidade dele muda completamente e eu tentei me perguntar o motivo disso, pois ele começa extremamente violento e, no final, parece-se muito com o próprio Brock.

O que eu entendi é que Venom não só absorveu as memórias de Eddie como também os seus sentimentos, o que eu achei realmente interessante, mas não o suficiente – da forma elaborada – para me convencer de que a mudança era verdadeira a ponto de justificar atitudes como as que teve no filme. Entretanto, explica muito o tom de quase comédia romântica que se instala em alguns momentos por conta da presença de Anne (Michelle Williams) e dos conselhos amorosos dados por um alienígena.

Confesso que o que me ganhou nesse filme foi a dublagem, pois o vi em português, e não sei – por mais que Tom Hardy seja um ótimo ator e interprete muito bem o personagem – se teria sentido e achado o mesmo se tivesse assistido no áudio original, por isso, não tenho como tirar os créditos, principalmente, do Guilherme Briggs (Superman), um dos melhores dubladores do país.

Venom é um filme feito para as massas. Divertido e com um tom até leve para o esperado do anti-herói – embora ele ainda coma cabeças –, segue a fórmula dos filmes elaborados pela Marvel, no entanto, com um pouco menos de capricho nos efeitos especiais e na narrativa. Basicamente, é um bom filme ruim.      

 

 

REFERÊNCIAS

MACKIE, Howard. Venom Especial. Ilustrado por Ron Randall com arte final de Sam de La Rosa. Marvel Comics, 1997.

STERN, Roger. DEFALCO, Tom. O Espetacular Homem-Aranha: O Nascimento de Venom. Ilustrado por Ron Frenz. Marvel Comics, 2014.