CRÍTICA #12: DO SONHO AO PESADELO

 

SINOPSE: Enquanto explora sua nova casa à noite, a pequena Coraline descobre uma porta secreta que contém um mundo parecido com o dela, porém melhor em muitas maneiras. Todos têm botões no lugar dos olhos, os pais são carinhosos e os sonhos de Coraline viram realidade por lá. Ela se encanta com essa descoberta, mas logo percebe que segredos estranhos estão em ação: uma outra mãe e o resto de sua família tentam mantê-la eternamente nesse mundo paralelo.

 

DIRETOR:Henry Selick (2009) 
GÊNERO: 
Animação, Família e Fantasia. 
DISTRIBUIDOR: Universal Pictures | EUA

Nenhuma adaptação é completamente fiel, o filme Coraline (2009) não é diferente. A experiência do filme e do livro são realidades que, embora usem um fio narrativo semelhante e um enredo extremamente parecido, são muito diferentes.

Confesso que entre a adaptação cinematográfica e o livro, eu prefiro o livro. Pode parecer clichê para você, talvez seja um hábito também, mas as noções colocadas por Neil Gaiman são diferentes das ideias apresentadas no decorrer do filme. Os pequenos detalhes se tornam grandes, diria até gigantescos, enquanto a trama vai passando aos poucos diante dos seus olhos, porém isso não impede nem o leitor e nem o telespectador de apreciar as mudanças dentro das duas mídias, seja você alguém que viu o filme primeiro ou alguém que leu o livro primeiro.

A diferença primordial, na minha concepção, é a relação dos pais da Coraline com a menina. Os pais dela são ausentes, tanto no livro quanto no filme, muito embora estejam dentro de casa. Contudo, a impressão que o filme passa é uma rudeza no linguajar e nas expressões que não existem no livro. O livro mostra pais ocupados que pedem à filha um pouco mais de tempo. No filme, são pais que querem paz para trabalhar e, somente lá para o final, a relação parece um pouco mais com a do livro.

Dessa relação familiar, nós vemos uma diferença bem grande em como a Coraline se apresenta e foi conceptualizada pela direção e roteiro no filme. Quando eu assisti à animação muitos anos atrás, confesso que não gostei muito do que me foi apresentado da personalidade da protagonista. Eu achei a personagem muito orgulhosa e prepotente para uma menina que estava caindo em uma armadilha até, possivelmente, óbvia – como é retratado muito bem no livro.

Entretanto, essa visão era afetada por uma falta de maturidade minha na época em que assisti pela primeira vez. Coraline é um reflexo dos pais, de como eles a tratam dentro de casa. Dessa maneira, a personagem que parece ser tão educada no livro, na animação, por sua vez, torna-se muito mais irritadiça e insegura, o que faz com que ela tenha muitas explosões de humor e, consequentemente, aja de maneira tão mesquinha com Wybie, personagem que no livro não existe. Ela reflete todo o tratamento que recebe em casa, jogando todas as suas frustrações no único que poderia, um menino de sua idade.

Wybie Lovat é um menino solitário, estranho e cabisbaixo que mora com a sua avó. Ele é a representação de alguém extremamente medroso que, ao contrário de Coraline, nitidamente precisa enfrentar os seus temores para ajudar a amiga (deve-se ressaltar que, no livro, ao contrário do filme, a protagonista é bem mais receptiva ao receio e ao medo, caráter que é bem escasseado durante o filme, trazendo à luz a necessidade da presença, no filme, de Wybie). Ele também é a pessoa que, de certa forma, introduz Coraline naquele universo novo e mágico, no qual estava prestes a adentrar – um recurso de roteiro para a retomada da pequena introdução do filme, em que já se insinua algo estranho e perigoso prestes a acontecer.

O menino também une os dois mundos com a história de sua avó, que desde o início, fala o quanto a casa é perigosa, trazendo o Outro Mundo para dentro da realidade. E, na figura do Outro Wybie, mostra-se a compaixão humana de um boneco que não é nem sequer capaz de falar e consegue comover a protagonista. Além disso, também é o personagem mais afetado pelas inseguranças e frustrações da personagem, servindo como veículo e transição de sua mudança.

Essa sua mudança de ações e reações, ao contrário do livro, em que não é tão necessária, é bem lenta e gradual. A Coraline, no livro, vai ao Outro Mundo somente duas vezes. Na primeira, já recebe a proposta inusitada da Outra Mãe e, na segunda, quando não tem mais escapatória e precisa cumprir os objetivos que a levaram a voltar para lá. Por sua vez, no filme, Coraline vai até o outro lado mais de três vezes, aproveitando um encantamento naquele universo que, para a personagem do livro, já se mostra macabro.

Ao meu ver, essa mudança de perspectiva não é necessariamente dentro da narrativa, mas na percepção da própria personagem. Como disse antes, são duas Coralines absolutamente diferentes. A personagem do livro, embora esteja insatisfeita com algumas coisas, não se deixa levar por mimos; em contrapartida, a protagonista do filme está completamente insatisfeita com tudo, tornando isso extremamente óbvio até para a sua mãe. Logo, a abordagem delas com o Outro Mundo é completamente diferente porque elas são, embora possuam o mesmo nome, personagens ímpares.

Muito provavelmente, essa mudança foi proposital para estender a história dentro do filme, visto que o livro tem um fio narrativo bem menor, o que renderia bem menos tempo em tela. Além disso, se mostrasse o Outro Mundo sem muito encanto, nem muita tentação, talvez a animação não fosse tão marcante quanto ela se tornou, principalmente, no quesito visual.

A animação é marcante pela própria execução e pela direção do Henry Selick (O Estranho Mundo de Jack), que trabalhou em diversos filmes com uma temática sombria para o público infantil. A ideia de Coraline, o filme, parece-me muito miscigenar o maravilhoso e torná-lo, aos poucos, assustador, o que causa muito mais impacto, tanto visual quanto mentalmente.

Toda a produção foi feita em stop motion, “movimento parado”, sendo extremamente interessante para quem quer conhecer um pouco mais o mundo das animações e muito bem utilizado dentro do universo de Coraline, na verdade, nesse quesito, é quase uma obra prima. Essa técnica de filmagem consiste em utilizar uma sequência de fotografias distintas em um mesmo objeto para simular que esse objeto esteja se movendo, a produção do filme utilizou 24 frames por segundo, que seria o máximo da capacidade humana para enxergar. Ainda mais curioso e interessante é o fato de que cada personagem tinha seu boneco, ou melhor, action figure com peças removíveis e alternadas, ou seja, o rosto era encaixável e até mesmo as sobrancelhas se moviam para melhores expressões, fazendo com que os personagens pudessem se mover – tanto na face quanto no resto do corpo – sem dar ainda mais trabalho para as pessoas que faziam parte da equipe do filme.

Coraline possui dois mundos e dois estágios dentro de cada um deles, sendo opostos. O primeiro momento do Mundo Real é do pesadelo, do tédio e da fadiga, em contrapartida no Outro Mundo, ela vive em um sonho, no qual há comida boa, fartura e podia fazer o que quisesse. Contudo, no decorrer da narrativa, esses dois polos opostos se alteram. A realidade se torna agradável, por sua vez, o Outro Mundo caminha do sonho ao pesadelo.

Mas o que é esse Outro Mundo? E por que temos um subtítulo que diz que ele é secreto? Ao contrário do livro, onde Coraline é a única a conhecer esse mundo – sem contar o gato sábio –, o filme o retrata como um grande segredo da avó de Wybie. A avó de Wybie sabia desse outro lugar desde o início e sempre recusava que crianças fossem para lá, que o próprio menino entrasse no Palácio Rosa. Esse segredo continua como um segredo, porém agora, no Mundo Real, existem mais pessoas sabendo sobre ele, como as duas crianças, o gato e a própria avó. Além disso, há mais um segredo do outro mundo que permanece no real, esse também é um segredo ambulante que pode ser descoberto.

Neil Gaiman aposta em Coraline com algo muito diferente, ele não apostou com dragões, fadas ou duendes, mas fantasmas e gatos pretos. Ele elaborou um universo fantástico, fabulístico e sobrenatural muito bem encaixado, tanto na animação quanto no livro.

A figura do gato é essencial para a narrativa e, diria eu, no filme principalmente, que ele é o verdadeiro herói de Coraline. Ele é aquele que avisa o tempo todo, que a ajuda nos momentos mais difíceis e que lhe contribui com os melhores conselhos. Em um universo onde os gatos geralmente são mal vistos, principalmente os gatos pretos, Coraline é uma boa pedida para ir contra essa ideia e preconceito. Muitas das falas do personagem dão-lhe um ar misterioso, muitas de suas respostas também nos mostram que não é por ter uma natureza tão diferente da humana ou da dos cães que gatos são necessariamente malvados ou problemáticos, dentro da narrativa, eu diria que as melhores falas foram dadas ao gato preto.

Gatos são animais que – embora na mitologia cristã sejam ligados ao pecado, bruxaria e heresia – representam o equilíbrio. Justamente por conta disso, ele é capaz de atravessar de um mundo para o outro, sendo não só o melhor companheiro de Coraline nessa viagem, mas o único e amigo dela.

A menina, o gato e o mundo secreto vão lhe proporcionar horas de diversão, ao mesmo tempo em que podem te dar sonhos ou pesadelos. Você só precisa escolher em qual dos dois mundos estar.

 

 REFERÊNCIAS

BETTELHEIM, B. A psicanálise dos contos de fadas. Tradução de Arlene Caetano. 16. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.

GAIMAN, N. Coraline. Tradução de Regina de Barros Carvalho. Rio de Janeiro: Rocco, 2003
SELICK, H. Coraline: Collector’s Edition. EUA: Universal Studios, 2009.