CRÍTICA #11: O QUE DIZER DA TUA FORMA?

 

SINOPSE: Década de 60. Em meio aos grandes conflitos políticos e transformações sociais dos Estados Unidos da Guerra Fria, a muda Elisa, zeladora em um laboratório experimental secreto do governo, se encanta com uma criatura fantástica mantida presa e maltratada no local. Para executar um arriscado e apaixonado resgate, ela recorre ao melhor amigo Giles e à colega de turno Zelda, em uma aventura que pode custar muito mais do que o seu emprego. 

 

DIRETOR: Guillermo Del Toro (2017) 
GÊNERO: 
Drama, Fantasia e Romance. 
DISTRIBUIDOR: Fox | EUA

Nós, no século XXI, somos movidos por palavras, precisamos constantemente que nos digam, que nos falem, que nos comuniquem alguma coisa e, infelizmente, nem sempre isso é o suficiente porque palavras podem dizer tudo e significarem absolutamente nada.

Palavras não são nada se não envolvem sentimentos ou verdades.

Talvez seja por isso que uma imagem vale mais do que mil palavras, como diz o ditado popular e, acredito eu, seja por causa disso que The Shape of Water (A forma da Água, em português) seja um filme tão cativante e em-pático.

Ao dizer empático, eu não quero simplesmente me referir ao termo dicionarizado, que significaria, no caso, aquele que é capaz de compreender ou se projetar em alguém ou alguma coisa, mas em sua etimologia. A palavra empatia vem do termo grego “empátheia, as”, que é a junção de um prefixo (em-) e um substantivo (páthos), o que quer dizer que não é somente aquele capaz de compreender ou de se projetar, mas aquele que está dentro, que sente dentro dele a paixão, o sofrimento, a tristeza, etc.

Por isso, eu penso que Guillermo Del Toro – projetando a ideia inicial de Daniel Kraus para o cinema – não quis fazer uma história de amor, mas uma história sobre sentir na pele a dor, estar dentro da dor e perceber a dor do outro como sua, porque, como Elisa (Sally Hawkins) diz, se ele, a criatura, – desprovido da capacidade de falar – não é digno de salvação, por que ela seria? O que ela seria?

Qual a diferença entre ela e o monstro? Talvez, a forma com que o mundo a olha, sem na realidade enxergar. Como fica claro dentro do livro e também no filme, Elisa o monstro (não simplesmente olha) e percebe que está sendo vista de volta, pois não é a mudez da personagem feminina que chama a atenção do recurso, como ocorre com Strickland (Michael Shannon) no desejo de submetê-la, em sua ambição por controle.

Assim sendo, é impossível negar a quem se dedica o filme dirigido por Del Toro: aos excluídos socialmente, àqueles que sofrem preconceito diariamente, àqueles que – dentro das hierarquias sociais – estão abaixo, estão submetidos e são, como é dito por diversas vezes no livro, os invisíveis.

Ao falar no livro, devo dizer que a minha percepção em relação ao filme mudou drasticamente, justamente porque são produções independentes uma da outra, mas que se influenciam por falarem dos mesmos personagens. Daniel Kraus e Del Toro produziram o livro ao mesmo tempo em que Guillermo e Vanessa Taylor produziam o filme, fazendo com que construíssem personagens indubitavelmente semelhantes, porém diferentes. E, confesso, preferi os personagens apresentados mais calmamente no texto escrito.

Talvez seja a minha necessidade de palavras clamando por mim, porém, a construção maniqueísta – e proposital – dos personagens no filme, após a leitura do livro de Daniel Kraus, soou extremamente rasa em relação a capacidade múltipla que eles poderiam ter apresentado em tela. Consigo compreender que a formação maniqueísta não reduz o intuito do filme, pelo contrário, é uma jogada proposital para combinar com os clássicos contos de fadas e também para mostrar a figura opressora do homem branco e americano na década de 60. Em um tempo em que Donald Trump é eleito, talvez esse caricaturismo seja mais do que necessário, pois, como diz o narrador na abertura do filme: “o tempo não passa de um rio que corre no passado”.

O fato é que ainda estamos moldados em diversos preconceitos criados em um tempo de ignorância e, por isso, parece que o tempo não transcorre. Contudo, esse maniqueísmo mostra a força desse preconceito naquele tempo e, principalmente, mostra a figura opressora do americano. Strickland é, por essência, o homem americano fanático por poder e controle, demonstrando a perfeição pelo carro que escolhe e pela família idealizada (no mais tradicional american way of life, ou estilo de vida americano).

Inclusive, devo admitir que na primeira vez que assisti ao filme, sem a leitura prévia do livro, eu não senti nenhuma falta dessa multiplicidade e vivacidade dos personagens, porém, foi a leitura que me induziu a sentir falta de elementos extremamente cativantes dentro do texto de Kraus, como Elaine (Lauren Lee Smith), que aparece simplesmente sendo subjugada no roteiro de Vanessa e Del Toro, o que difere da mulher forte que ela busca ser na trama do diretor com o idealizador do projeto.

Contudo, em contrapartida, parte dessa força se encaminha diretamente para Zelda (Octavia Spencer), que, no livro, não consegue silenciar o marido e ligar para a amiga, sendo obrigada a surpreendê-lo para conseguir escapar de sua opressão. Enquanto que, no filme, Zelda não somente liga como inverte a opressão que sofre.

A excelência do filme de Del Toro se encontra nesses pequenos momentos rebeldes e de luta que, por um segundo, passam na televisão do apartamento de Giles (Richard Jenkins), como também nos pequenos detalhes do filme que são construídos pelos cenários, objetos, vestimentas e até a tonalidade de paleta utilizada, que vagueia entre o azul e o verde.

Ao falar nas cores, há uma mudança gradual – e proposital – delas no decorrer da película. Por exemplo, a cor dos sapatos de Elisa. No início do filme, podemos perceber que eles são sempre escuros e fechados, tons como verde escuro ou preto e, a partir da aproximação dela com a criatura, as cores vão ficando mais vivas, mais claras, ao ponto de chegarem à cor da paixão, o vermelho. É o momento em que a realidade dura vai se transformando em fantasia, pois ela está cada vez mais encantada/ apaixonada pelo monstro.

 No entanto, não deixa de ser engraçada a inversão dela em relação à sociedade em si, pois enquanto Elisa vai saindo do verde e se encaminhando para o vermelho, Giles é obrigado pela empresa que trabalha a sair do vermelho – que faz pelo prazer e pela paixão – para o verde, pois a sociedade não vive a fantasia, mas o duro e monótono cotidiano em que o sonho americano – como é apresentado pela gelatina feita por Elaine que é verde –, na verdade, é uma esperança de sonho. Podemos perceber a importância dos detalhes a partir dessas duas cores que são capazes de dizer sobre o valor do fantástico, o valor do sublime e como sonhamos e temos esperança de termos esse amor em nossas vidas.

Como no início da trama em que Elisa sapateia ou se masturba numa forma de escapar de sua realidade, mulheres como Elaine e Zelda estão cozinhando para os seus maridos ou sendo violentadas por eles. Essa contraposição mostra, e muito, qual é a opinião do filme sobre o monstro, sobre quem é o monstro. Inclusive, é interessante perceber que o nome de Michael Shannon (Strickland) aparece no exato instante em que o narrador fala a palavra monstro, na incrível frase: “e um monstro que tentou destruir tudo”.

Há uma inversão de valores que são apresentados pelos personagens como Strickland e Hoyt para o que percebemos do filme e para que o primeiro percebe no final da trama. A criatura, embora pareça um monstro – claramente uma homenagem ao Monstro da Lagoa Negra (1954), cujo final manteve Del Toro decepcionado por toda a vida –, é colocada em um patamar divino e isso é interessante porque os homens, em uma fala clara de Strickland, colocavam-se dessa forma quando se comparavam a Deus e, no final, há a percepção de quão errados estão.

A narração inicial é sublime, um texto curto e impactante na voz de Richard Jenkins que nos remonta aos clássicos contos de fadas e, ainda que digamos – e eu mesma digo – que é um conto de fadas adulto, na verdade, ele só é um conto de fadas, porque os originais vagueavam nesse meandro de tortura, violência e nem sempre tinham finais felizes. No entanto, essa definição se deve às adaptações posteriores, voltadas para as crianças de nosso tempo.

O cenário é impecável, toda a estrutura consegue nos levar aos anos sessenta, no auge da Guerra Fria, ao mesmo tempo em que nos transporta para algo fantasioso, porque são cenários encaixados demais. A fotografia no filme é impecável e os pequenos detalhes e os filtros de cores concordam com a criatura, com a fantasia e com a brutalidade.

Contudo, o que me faz suspirar durante o filme – não que os outros detalhes não façam – é a música. A melodia contrasta com o silêncio e faz parte dele, boa parte do tempo não há voz, mas quando ela está presente transporta cada pequeno pensamento e sensação para aquele momento, como a música de Edith Piaf, no auge da paixão de Elisa e a criatura.

Esse confronto entre melodia e silêncio, realidade e fantasia, doçura e tortura é parte do que fez o filme natural. Nós estamos sempre no centro da tempestade, não somos nem bons e nem maus, nem completamente focados no real ou no sonho, somos meio-a-meio e isso é completamente naturalizado dentro da película que apresenta personagens maniqueístas e faz com que aceitemos o que é estranho e ele se converta em natural, e abominemos o que existe de mais odioso porque o preconceito não é natural, mas uma construção social.

O que favorece e muito para essa naturalidade, definitivamente, é o elenco. A atuação – de todos – é impecável. Shannon como Strickland consegue despertar o maniqueísmo ao mesmo tempo em que nos demonstra não ser bem assim, pois, observando nas entrelinhas, podemos perceber o constante vício por controle justamente porque ele se submete a Hoyt, a quantidade de analgésicos que consome e fazem-no cada vez mais obcecado, até mesmo as expressões do ator enquanto interpreta cada uma das cenas, como olha para Elisa ou Zelda, o seu olhar muda e isso é fascinante.

Enquanto a atuação do vilão do conto de fadas é incrível, temos uma força enriquecedora na atuação dos coadjuvantes. Richard Jenkins (Giles) consegue trazer toda a frustração de um homem de idade que não aproveitou a vida o suficiente e amarga arrependimentos, por sua vez, Octavia Spencer (Zelda), embora não tenha um papel que precise de uma atuação além, traz consigo a força arrebatadora de uma mulher batalhadora que ainda sonha com o amor, um que Elisa encontra.

Ao falar em Elisa, percebo que não tenho palavras para comentar a atuação brilhante de Sally Hawkins, pois ela não disse uma palavra e, acredito eu, não precisava da legenda para compreendê-la. O trabalho dela necessitava que ela dissesse sem falar nada em uma sociedade que necessita de palavras, o fato dela conseguir expressar absolutamente tudo com o corpo (e não somente as mãos), faz com que seja uma das atrizes mais brilhantes que já vi, embora não tenha ganhado o Oscar. A expressividade dela se encontrava no olhar, na intensidade ou na calmaria de seus gestos, na forma em que respirava, por incrível que pareça! Há uma cena em que a forma que ela olha para Zelda fala sobre seu amor, a forma como respira faz isso – e é sublime.

No sublime, encontramos a criatura e a atuação de Doug Jones, outro que precisava falar – em uma linguagem não humana – o que um humano teria que compreender. Acredito que ele possua talento exatamente para isso e não quero dizer com isso que ele não estude ou se esforce, mas claramente nasceu para fazer as criaturas que Del Toro imagina em sua mente, tanto que ele é o mesmo ator que fez um dos meus pesadelos, o Fauno (O Labirinto do Fauno, 2006), também idealizado pelo diretor de The Shape of Water. Em ambas as atuações, Jones é fantástico, uma me causando fascínio e a outra, terror completo.

Então, retornando a questão inicial, sobre o que dizer da forma – seja da água do filme ou do livro –, a resposta que chega à minha mente é que é poética e a poesia pode se intercambiar tanto que não há forma para ela, nem para a água, nem para nós mesmos, pois enquanto estivermos presos às formas, não aproveitaremos o máximo que podemos usufruir delas.

 

REFERÊNCIAS

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 9ª edição. Rio de Janeiro: Ediouro, 1954.

CHEVALIER, Jean. GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2017.

TOLKIEN, J. R. R. Árvore e Folha. São Paulo: Wmf Martins Fontes, 2013.

<https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2018/03/06/a-forma-da-agua-um-livro-idealizado-antes-do-filme-mas-publicado-depois.htm>; consultado em 08/08/2018 às 23hr.