RESENHA #140: CORES DA VIDA

AUTORA: Amita Trasi
SINOPSE: Aos dez anos, Mukta é forçada a seguir um ritual de sua casta, que, essencialmente, a torna uma prostituta. Para salvá-la deste horrível destino, um homem a resgata e lhe dá um lar. Tara, filha dele, cria um laço especial com a criança recém-chegada — um vínculo digno de irmãs. A amizade sofre um baque definitivo, entretanto, quando Mukta é sequestrada. Anos depois, vivendo nos Estados Unidos, Tara retorna à Índia para encontrar a amiga que, ao que tudo indica, foi submetida novamente à prostituição. Mas a extrema pobreza em Bombaim se mostra uma realidade mais difícil do que Tara consegue suportar.
Relato emocionante e realista da Índia contemporânea, Todas as cores do céu mostra como o sistema de castas explora os mais fracos, e como o amor nos faz buscar a reparação para nossos atos mais horríveis, vencendo barreiras impenetráveis.

Para alguns, literatura representa entretenimento; outros propõem a literatura como reflexão. Talvez seja por isso que os especialistas não concordam com uma definição para o termo, porque a literatura está tortuosamente na busca de um significado que nunca se completa.

Todas as cores do céu, como literatura, apresenta-se quase como um panfleto, uma cartilha e um pedido de ajuda para muitas meninas em situações nada agradáveis. Engajada numa crítica social muito importante para Índia, Amita Trasi denuncia o abuso, o sistema e a política indianos.

Antes de tudo, é importante pontuar que a crítica feita resvala principalmente no sistema de castas da Índia. O sistema de castas, por mais que tenha sido proibido, é um recurso cultural que se mantém engajado pela própria população, a qual o entende, religiosa e economicamente, como ideal. Embora, ao que nos parece, esteja longe de ser.

Tal sistema promove que pessoas estejam hierarquicamente acima de outras. Umas são desconsideradas como indivíduos e, por conta disso, precisam de um meio de subsistência degradante. Essas famílias, dalits (conhecidos como intocáveis, porque são só a poeira deixada pelo corpo do Criador), acabam se infiltrando em ilegalidades, como a venda de filhas, netas, etc.

Ainda que não seja justificável, o próprio sistema explica esse recurso. Outrora, essa era considerada uma prática divina – as devadasis, também conhecidas como prostitutas do templo, se casavam com o templo ou a própria deidade e eram sagradas para a comunidade. |Entretanto, com o pensamento cristão e britânico, a Índia passou a vê-las como mercadorias.

Essas mercadorias, sem espaço nas castas, acabaram tendo que se contentar com o ofício de prostitutas. Afinal, do que elas iam sobreviver? Assim, a crítica de Trasi é dupla: não só a prostituição em si, mas o que a ocasiona. Ela vê mais a fundo, não ataca o problema senão pela raiz

Com todo esse panorama histórico-social, Trasi traz, como narradoras, duas protagonistas mulheres socialmente separadas. Tara, de uma alta casta, é subjugada pelo nascimento e casamento conturbado de seus pais, porém, possui direito à educação; Mukta, desejosa por aprender a ler e escrever, tem seu destino selado pelo ventre de sua mãe, uma devadasi. Nessa dualidade, vislumbrada por pontos de vistas e tempos narrativos diferentes, encontramos a realidade da mulher indiana nua e crua.

Todas as cores do céu é uma história angustiante que conta com personagens bem desenvolvidas e fortes, principalmente, Tara. Mukta soa idealizada por diversas vezes, porém, a sua personalidade – pelo que me parece – advém da aceitação da sua posição social. Além de um cenário rico de informações culturais, Trasi traz uma forte crítica ao tráfico humano recorrente no seu país de origem, à violência sexual e infantil, à prostituição e aos diferentes valores sociais impostos pelo nascimento.

Contudo e apesar de tudo isso, Todas as cores do céu é uma história que relata esperança, sobrevivência, amizade, perdão e como as diferenças não importam se houver educação e amor.

É uma história para refletir as diferentes cores da vida.

REFERÊNCIA

TRASI, Amita. Todas as cores do céu. Tradução de Caroline Chang. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2019.