BIOGRAFIA #33: DINO BUZZATI

 

A LUTA CONTRA O TEMPO

 

Quem já leu alguma obra de Dino Buzzati é capaz de perceber os maneirismos do autor quando o assunto é o tempo. Ao tempo – àquela sensação abstrata de que tudo acontece enquanto nada ocorre; àquela sensação de algo que se esvai, mas que permanece – é que Buzzati dedicou boa parte de sua vida, sua história e a suas obras.

Muitos de nós definimos o tempo, que a si próprio não se define. Eu diria que, entre todos os autores que pude apreciar, com exceção talvez de Manuel Bandeira, ele foi o que mais chegou perto de defini-lo, embora parecesse não desejar fazê-lo ao mesmo tempo. Ele não falava sobre números, e sim sobre sensações – o que fazia parte da maestria do jornalista, artista plástico e escritor.

Inclusive, foi a partir de O Deserto dos Tártaros (1940), obra que trabalha alegoricamente todas as sensações do passar do tempo de um homem, que o autor e jornalista ficou conhecido pelo mundo inteiro. O seu brilhantismo ultrapassou a Itália, lugar no qual já era famoso pela obra Bárnabo das montanhas (1933), e alcançou todos os homens que se dispuseram a ler sua história.

Dino Buzzati nasceu em Belluno, uma comuna italiana pacata, tranquila e fria que não refletia – em nenhum aspecto – o caos, a alegria e a vivacidade urbanos comuns da Itália, que nos são conhecidos e estereotipados no Brasil. Graças a isso, o autor sempre foi um exímio admirador da natureza e também da arte, sendo, desde jovem, alguém que observava o mundo com olhos únicos.

Ele, muito novo – segundo filho de quatro –, já escrevia, desenhava e estudava música, porém, nada superava a sua paixão pela a natureza. Como é possível ver em sua primeira obra, Bárnabo das montanhas – à qual dedicou especialmente a uma montanha que admirava – e até mesmo em O Deserto dos Tártaros, ele dedica boa parte de suas histórias aos belos cenários. O mundo e o tempo funcionavam para Buzzati de uma forma que somente suas obras podem contar.

Seu pai era um professor universitário, além de jurista, e sua mãe, veterinária. Logo, não é de se estranhar que sempre tenha havido certo incentivo para os estudos na família Buzzati.

Quando tinha quatorze anos, seu pai faleceu, fazendo com que o pequeno Dino se matriculasse em uma famosa escola secundária de Milão, onde conheceu Arturo Brambilla, seu melhor amigo e futuro colega de trabalho. A partir desse tempo e com essa companhia, Buzatti começou a estudar a cultura egípcia e o que o deserto tinha para oferecer.

Em 1924, antes mesmo de escrever qualquer um de seus livros, ele entrou para a Universidade de Milão (Università degli Studi di Milano), lugar no qual seu pai outrora lecionara, para estudar Direito. Anos depois, em 1928, Buzzati foi contratado pelo Corriere della Sera, um jornal de Milão famoso ainda nos dias de hoje e finalmente se formou na faculdade.

Nesse tempo, ele ganhou espaço no círculo intelectual italiano, mas sócomeçou a publicar suas histórias em 1933 e, depois, em 1935 – a qual nem sequer chamou atenção da crítica. Somente conseguiu retomar sucesso com a aclamada obra O Deserto dos Tártaros, em 1940, história que imaginou e elaborou em sua mente – dizia ele, em apenas uma noite – em plena Segunda Guerra Mundial, quando havia sido enviado pelo Corriere della Sera para a África, onde serviu como jornalista da Marinha italiana.

Dino Buzzati era um exímio escritor, porém, ficava nítido em suas obras o seu lado jornalístico, principalmente quando ele relatava as informações da forma mais impessoal possível. Impessoalidade que é ministrada, inclusive, em seus temas: a natureza e o tempo; temas que, ainda assim, são carregados de sentimentos, como o medo, a ansiedade, o transcendente, a angústia e, diria, a própria magia do mundo – tanto que o gênero que é englobado, pelos italianos, principalmente, é de literatura fantástica e, para minha surpresa, de horror.

Buzatti viveu por muitos anos, continuando o jornalista que sempre foi e, em nossa memória, ainda é. Ele faleceu em 1972, levado por um câncer no pâncreas. Embora tenha lutado muito contra a doença e tantas outras coisas na vida, Dino Buzzati não foi capaz de vencer a luta contra o tempo.