BIOGRAFIA #31: J.M. BARRIE

 

 

ENQUANTO AS CRIANÇAS FOREM ALEGRES, INOCENTES E DESALMADAS

 

Há uma pergunta contínua na literatura sobre a eternidade. O que é a eternidade e como podemos alcançá-la, afora as poções e magias do mundo fantástico? Essa é uma questão que sempre me rende pensamentos mil e eu sempre me pergunto se a eternidade de autores não é quando os canonizamos com algum texto seu.

Definitivamente, há em Barrie uma eternidade acima de muitas outras, porque é a eternidade que Lewis Carroll carrega: a da infância; ou a de Baum: da modernidade do conto de fadas. O interessante desses três autores – e que há de mais em comum entre eles – é que todos reinventaram a imaginação e a própria noção do ser criança e transformaram-nos, sem percebermos, até em nossa fase adulta.

J.M. Barrie é um dos meus autores de livros infantis favoritos, embora o seu personagem principal, Peter Pan, não o seja. No entanto, a história por trás disso é um tanto dolorosa.

Barrie era escocês, nasceu em Kirriemuir, no ano de 1860, e o nono de dez filhos. Naquela época, era comum ter muitos filhos e, no século XIX, era comum que nem todos chegassem a fase adulta. David, um dos irmãos mais queridos do escritor, sofreu um acidente terrível, em 1867, e quebrou o crânio, vindo a falecer.

É impossível negar que essa fatalidade veio perseguindo o menino franzino, delicado e baixinho de sete anos que adorava histórias de pirata durante toda a sua vida, pois seria essa eterna criança que o seu irmão se tornou que viria a figurar o seu personagem mais famoso, o menino que não queria – e nem podia – crescer.

Sabe-se que em 1882, Barrie terminou os seus estudos na Universidade de Edimburgo, formando-se em Literatura e, após se formar, tornou-se jornalista e trabalhou para o Nottinghamshire Journal. Somente em 1885 que o autor se mudou para Londres para se tornar escritor, concentrando-se em seus escritos, publicando contos em coletâneas.

Contudo, ele era muito mais eclético do que isso e, além de contos e romances, o seu primeiro sendo Richard Savage, em 1891, escreveu a sua primeira peça, homônima ao seu romance, que, no mesmo ano, foi encenada.

Supõe-se que foi nessa época em que conheceu Mary Ansell, sua esposa, e se casou com ela em 1894. Os dois se mudaram para o número 133 da Gloucester Road, que ficava bem perto do parque Kensington Gardens, relembrado diversas vezes em Peter Pan, onde passeava com seu cão Porthos (referência aos Três Mosqueteiros).

Nesses passeios com Porthos, Barrie já havia conhecido as crianças que inspirariam Peter Pan, no entanto, só percebeu isso após um jantar de fim de ano, com os pais Sylvia e Arthur Davies. Em 1901, já bem próximo à família, Barrie decidiu passar o verão em Surrey, onde escreveu The Boy Castaways of Black Lake Island (Os meninos naufragados da Ilha do Lago Negro), que é considerado – de acordo com Flávia Lins – o mais antigo esboço de Peter Pan.

Em 1902, ele publica o romance The Little White Bird (O Pequeno Pássaro Branco), em que, pela primeira vez, Peter Pan aparece. Dois anos depois, a peça Peter Pan, or The Boy Who Wouldn’t Grow Up (Peter Pan, o menino que não queria crescer), estreia.

Após o sucesso de Peter Pan, Barrie continua a criar peças e, em 1909, divorcia-se de sua esposa. Um ano depois, morre Sylvia Davies e, com o marido já tendo falecido três anos antes, determina que Barrie e a sua governanta seriam aqueles a tomar conta de seus filhos.

Embora tendo agora que cuidar das crianças Davies, Barrie não parou de produzir, em 1911, Peter Pan se transformou em livro tanto quanto a história definitiva do personagem.

Em 1913, Barrie tornou-se um baronete e passou a ser chamado através de seu título, ele continua a publicar peças teatrais e, em 1919, torna-se o reitor eleito da Universidade de St. Andrews, na Escócia. Entre 1930 até 1937, ele foi Chancellor da Universidade de Edimburgo, só deixando o cargo porque, nesse mesmo ano, com 77 anos, em Londres, Barrie faleceu de pneumonia.

Ele pode ter morrido, mas deixou a Terra do Nunca para nós sonharmos e, enquanto as crianças forem alegres, inocentes e desalmadas, ele continuará eterno, como Peter.