BIOGRAFIA #28: NIKOLAI LESKOV

 

 

O NARRADOR FIGURA ENTRE OS MESTRES E OS SÁBIOS

 

Nós, durante a nossa vida de leitores, conhecemos muitos narradores, pessoas que contam uma história e nos embalam dentro dela. Contudo, nenhum narrador foi mais marcante e sublime que Nikolai Leskov. Seu posto é extremamente prestigiado, pois, para Walter Benjamin – e tantos outros –, ele é o narrador por excelência.

Outros escritores também se devotaram à excelência de Leskov, como é o caso do escritor Máximo Gorki que o considerou “o mais russo entre os escritores russos”. Esse “epíteto” não é por acaso, pois o autor era um exímio narrador e, acima de tudo, olhava para a Rússia e a via como era: sem máscaras ou artifícios da linguagem conceitual das academias, mas com a visão das pessoas que por ali circulavam.

Na academia, nós aprendemos muito sobre narradores a partir de O Narrador, de Walter Benjamin, porém, nenhum dos meus professores se preocupou muito em falar dessa figura tão importante e interessante para a literatura russa – e para o resto do mundo. Muitos utilizam esses escritos para definir padrões estéticos e dialógicos, no entanto, esquecem-se de visitar o primor que fez o coração de Benjamin se inflar ao ponto de considerá-lo o melhor.

Essa exclusão se deve, talvez, ao tipo de narrativa que ele escrevia: contos populares – e lendários – russos, muito similares aos contos de fadas que vemos em autores como Andersen ou os irmãos Grimm.

Falar de Leskov é falar de um homem interessante, como já é título de um dos seus contos. Seus textos são extremamente agradáveis de ler e atingem você, de uma forma ou outra.

Nikolai nasceu no ano de 1831, num povoado russo chamado Gorókhovo, na província de Oriol. Foi educado por sua mãe, Maria, embora seu pai fosse tão capaz quanto, visto que era um padre ortodoxo – ou melhor, ex-seminarista – com uma fama arrebatadora. Semión, o genitor do autor, tinha um alto cargo no departamento criminal, sempre sendo louvado como um brilhante investigador.

Depois de um tempo, por causa de um problema entre seu pai e os superiores dele, mudou-se com toda a sua família para o campo, lugar em que – pela primeira vez e mais acentuadamente – passou a ter contato com o povo russo de origem camponesa.

Contudo, Leskov não se manteve em uma comodidade familiar por muito tempo. Aos dezesseis anos de idade, abandonou os estudos e começou a trabalhar no mesmo órgão governamental em que seu pai tinha labutado. No ano seguinte, o pai de Leskov veio a falecer, fato que provavelmente ajudou o autor a tomar a decisão de se mudar, transferindo-se para Kíev, na Ucrânia – o que ocorre somente em 1849.

No tempo em que se mantém por lá, em média oito anos, Nikolai frequenta – como mero ouvinte – a universidade e, nesse meio tempo, não só estuda a língua polonesa como também começa a conhecer academicistas da época.

Aos vinte e dois anos, em 1853, casou-se com Olga Smirnova, no entanto, a união infelizmente não se tornou profícua e, na década seguinte, os dois romperam laços. Nessa mesma época em que se separou, ele começou a labutar para uma empresa comercial inglesa e esse trabalho gerou frutos muito prósperos para a escrita e para o que viria a ser a obra do escritor.

Nesse emprego, Lesvok começou a viajar por diversas regiões da Rússia, conhecendo e se aprofundando ainda mais nos costumes, nos contos locais e em tudo que o cercava, o próprio autor considerou como a época mais gratificante e feliz de sua vida inteira.

Depois desse período, Leskov voltou para Kíev, começando a escrever artigos a respeito do que passara a conhecer. Somente em 1862, morando em São Petersburgo, é que ele começa definitivamente a sua carreira literária. Contudo, sua carreira como comentarista acabou lhe gerando muitas confusões no campo da política, por conta disso, era considerado, pelos dois lados, uma pessoa indigna de aplausos e afeto – o que dificultou e muito que suas obras chegassem aos dias de hoje (claro que o privilégio de lê-lo se deve a um dos seus maiores admiradores, Gorki).

Na década seguinte, Leskov já é um autor que possui uma novela e um romance escritos, também é nesse tempo que rompe com a Igreja, publicando tanto artigos quanto narrativas anticlericais.

Além desse anticlericalismo, Leskov ficou conhecido como um indivíduo liberal demais, o que lhe causou certos problemas, como ser retirado do Ministério da Educação, em 1883.

No entanto, ainda que afastado da religiosidade e do seu antigo emprego, Leskov se dedica mais ainda as suas obras. Em 1887, ele e Tolstói se encontram e, por conta disso, muitas das crenças de um autor são transmitidas para o outro.

Nikolai Leskov não viveu por mais muito tempo, no ano de 1895, em São Petersburgo, veio a falecer. Sua obra, na época, não era nem um pouco valorizada, principalmente, por seu posicionamento político e suas críticas fugazes; somente muitos anos após sua morte, tanto como o pintor Van Gogh, que foi reconhecido. Atualmente, ele é visto como um dos maiores nomes da literatura russa do século XIX – e, definitivamente, não é para menos.