BIOGRAFIA #27: JULES VERNE

 

 

É INADMISSÍVEL UM SER DOTADO DE VONTADE SE ENTREGAR AO DESESPERO

 

Existem pessoas que não desistem dos seus sonhos por nada nesse mundo e nem em qualquer outro. Jules Verne, conhecido no Brasil – e também em outros países de língua portuguesa – como Júlio Verne, é um dos mais exímios exemplos que podemos encontrar por aí de alguém que, independente de toda adversidade, insistiu no ofício que tanto amava.

Jules-Gabriel Verne nasceu em Nantes, no dia 8 de fevereiro de 1828. Seus pais eram Pierre Verne, um ferrenho advogado católico que desejava o mesmo ofício para o seu filho, e Sophie Allotte de la Fuÿe.

A única questão é: Jules Verne não queria ser advogado. Desde pequeno, era fascinado por geografia e um excelente aluno da matéria em questão, como também ótimo em música. Contudo, vivia à sombra do pai que desejava que o filho seguisse seus passos e, por um tempo, ele os seguiu de fato; porém, tudo mudou após a primeira paixão do escritor.

O escritor teve sentimentos frustrados por sua prima e, por estar desolado, a família o enviou para longe de casa para cursar direito. Chegando em Paris, fazendo bacharelado na área designada por seu pai, começou a frequentar os salões literários – num deles conheceu Alexandre Dumas Filho, com que criou uma amizade profunda – e a se interessar mais por literatura do que pelo ofício que estava a caminho de exercer.

Nesse meio tempo, conheceu Aristide Hignard, um músico com quem passava o tempo escrevendo. Depois conheceu um explorador – e também escritor – Jacques Arago, que foi uma grande influência para Verne.

Em 1851, Verne começou a publicar seus primeiros contos em um periódico chamado Le Musée des Familles, obviamente, sem abandonar a Comédia, as peças teatrais de viés cômico, que começava a ser representada nos teatros de Paris. Também foi nesse mesmo ano que Jules Verne teve a sua primeira crise de paralisia facial, a primeira entre muitas – inclusive, ao lado da diabetes, foi uma das causas de sua morte.

No ano seguinte, decidiu de vez abandonar a carreira escolhida por seu pai para, finalmente, dedicar-se à literatura. Nesse meio tempo, viveu na boemia, frequentando bares ao lado de seu amigo Hignard, com quem dividia um quarto por ser muito mal remunerado na época.

Alguns anos depois, em 1856, Verne conhece Honorine de Viane, no casamento da irmã da viúva, que já tinha duas filhas. Diz-se um azarado no amor, mas, finalmente, com uma possibilidade à frente. Com a ajuda financeira de seu pai, compra uma participação na casa de câmbio do futuro cunhado e, para sustentar Honorine e suas filhas, decide trabalhar com a Bolsa.

No ano seguinte, casou-se com a viúva, dividindo-se entre literatura, casamento e trabalho. Sem deixar de lado as peças teatrais que, uma atrás da outra, entravam em cartaz, como é o caso de O Sr. Chimpanzé.

Em 1859, começa a escrever textos relacionados a viagens, como é o exemplo de Viagem à Inglaterra e à Escócia. Já em 1960, conhece o fotógrafo e aeronauta Félix Nadar, que seria a sua maior fonte de inspiração para Cinco semanas em um balão.

Cinco semanas em um balão foi um dos seus textos mais famosos e a primeira das maravilhosas publicações de Viagens Extraordinárias, como seria conhecido mais à frente. Inclusive, esse mesmo livro foi editorado por ninguém menos que Pierre-Jules Hetzel, apresentado a Verne pelo ilustríssimo Alexandre Dumas (sim, o pai!).

Hetzel é um dos motivos para a carreira incrível de Verne, pois foi a sua sagacidade no mercado editorial que levou Verne – como se ele estivesse mesmo em um balão – para todos os lugares e, é interessante acrescentar que, além de Agatha Christie, o autor é um dos mais traduzidos no mundo inteiro.

Com o passar do tempo, algumas de suas obras sofreram alterações, como é o caso de Viagem ao centro da terra, que foi expandida três anos depois de sua publicação, e Viagem Submarina, que após um tempo, seria conhecida como 20 mil léguas submarinas. Todas as suas obras foram inspiradas, estudadas e desenvolvidas em viagens, claro que, nesse processo, ele não alcançou o centro da terra.

Contudo, vale ressaltar que fazia constantemente viagens e também, com afinco, estudava geografia. Quem já leu um livro do Verne sabe como ele é capaz de convencer o leitor, a partir de bases científicas da época, de que tudo que ele diz é plausível e também real. Obviamente que com o tempo, o fantástico se tornou mais plausível do que acreditar em muitas coisas ditas em seus textos – mas, para o leitor da época, quase sem acesso, aquilo tudo era mais do que possível, quase real.

O seu amor por viajar era tanto que, em 1868, comprou o seu primeiro barco, um veleiro com o nome de Saint-Michel, mesmo nome de seu único filho, inclusive, que nasceu em 1861.

Verne ficou tão famoso que tinha um contrato para escrever três livros por ano; não que ele tenha se mantido nesse contrato até o fim. Pois é, em 1871, o autor acabou pedindo para que fossem somente dois volumes por ano, talvez por conta da morte do pai, em novembro.

Em 1872, Verne se torna membro da Academia de Letras e a sua coletânea As Viagens Extraordinárias é premiada. Nesse mesmo ano é que ele escreve um dos seus títulos mais famosos no mundo inteiro, Volta ao mundo em 80 dias; inclusive, entre todos os textos de Verne, esse é o que possui uma das leituras mais tranquilas de se fazer e também que se transformou em peça de teatro, alguns anos depois.

Embora a carreira como escritor tenha sido incrível, Verne possuía muitas dificuldades familiares, como o próprio filho. Michel fez com que tivesse que vender seu barco por acumular dívidas, ficou internado em uma clínica de recuperação, entre tantos outros problemas que acabam afetando a vida do pai, o qual, apesar de tudo, não o abandonou – tal como seu pai não tinha feito quando ele resolveu seguir a carreira que o faria ser grande e famoso –, quem o fez foi o filho.

Entretanto, não somente Michel acaba trazendo problemas na vida de Verne. Em 1885, o autor teve uma brusca queda das tiragens de seus romances e, por conta disso, nas vendas. Contudo, o pior vem em 1886, com a morte do editor e amigo Hetzel e também por conta do sobrinho que, em um acesso de loucura, atira nele. Graças a isso, Verne nunca se recuperou e passou o resto da vida com dificuldade de andar, pois uma das balas não pôde ser extraída.

Mesmo nesse mar complexo e problemático que passa ser a viagem da vida de Verne, algumas coisas muito boas ocorrem depois, como a reconciliação entre pai e filho; ser eleito na Câmara Municipal de Amiens e também o incentivo à construção de um circo municipal, que fica pronto graças a ele. Também ocorrem coisas ruins, como a piora de sua saúde: além do problema facial e do tiro na perna, o autor começa a ter bulimia e descobre que tem diabetes.

Nesse constante, quem passa a escrever as obras de Verne é o filho, Michel, até porque, em 1897, o escritor fica cego por causa da sua diabetes e se torna cada vez mais recluso, tanto pelo estado problemático de suas finanças como também por conta de sua saúde.

Após a sua morte, no entanto, Michel percebeu os vários manuscritos guardados e com a ajuda do filho de Hetzel, chamado também Jules, provavelmente em homenagem ao amigo, os dois passaram a publicar diversas obras póstumas desse autor que além de imaginativo foi alguém, independente de tudo, persistente. Ele nunca desistiu de ser quem deveria, pois seu coração pulsava e sua vontade estava lá.