BIOGRAFIA #25: STANLEY (STAN LEE)

 

 

COM GRANDES PODERES VÊM GRANDES RESPONSABILIDADES

 

Se existe uma frase que sempre fez sentido para mim, foi essa. Stan Lee, um dos maiores revolucionários dos quadrinhos, morreu nesse ano e deixou para trás um legado artístico imensurável.

Ao contrário de muitos artistas que vieram de berços de ouro ou que já, desde a infância, possuíam problemas complicados demais para serem descritos de maneira simples, o autor de Spider Man (Homem Aranha) vinha de uma família de imigrantes judeus romenos que não tinha muito dinheiro, mas amor o suficiente para ceder o quarto aos filhos – ele e o seu irmão, também escritor e quadrinista – enquanto os pais dormiam na sala.

Mas a adversidade originada pela segregação de classes não impediu que Lee buscasse fazer o que sonhava, formando-se muito jovem no colégio, ingressou mesmo antes de concluir a escola no mercado de trabalho, onde fez de tudo e um pouco mais, como entregar comida e escrever obituários no jornal.

Talvez se Stan Lee nascesse em um berço de ouro, sua noção de mundo não fosse tão clara, pois justamente por causa de todas as adversidades que o autor passou, ele sempre buscou histórias palpáveis, personagens que tivessem problemas para pagar as contas do final de mês, assim como qualquer um de nós. Muito distante do Stark, claro.

Assim como ele próprio.

Embora Stan seja um apelido carinho para Stanley, Lee não é verdadeiramente o seu nome. Uma curiosidade muito interessante sobre um dos maiores editores do mundo é que, antes de tudo, ele queria ser escritor de romances – embora tenha escrito um enquanto fez centenas de comics – e não desejava que seu nome estivesse vinculado aos quadrinhos. No final das contas, ele nunca mudou o seu nome e também nunca saiu do universo que fazia parte de quem ele foi, é e sempre será para nós, os seus fãs.

O mundo dos quadrinhos, definitivamente, passou por uma revolução incrível graças a um dos senhores mais simpáticos do mundo e que poucos conhecem. Antigamente, por exemplo, as histórias de quadrinhos eram procedurais, com arcos fechados no mesmo capítulo, sem estender a trama para uma nova edição, no entanto, Lee mudou a forma de execução dos quadrinhos – o que foi muito difícil por não darem muito crédito as suas inovações. Um adendo interessante é que ele foi o criador também da ideia de universos compartilhados, em que um personagem que você ama aparece na história de outro personagem que você adora (como o Pantera e a Tempestade serem um dos meus casais favoritos da Marvel), no entanto, também não deram muito valor a essa ideia a princípio.

Outra ideia que se fortificou graças a Stan Lee foi a de dar os devidos créditos aos artistas, ilustradores, roteiristas e qualquer um que participasse da produção de um quadrinho, uma inovação específica do célebre autor que queria, antes de mais nada, divertir-se fazendo o melhor que poderia: conscientizando as pessoas enquanto elas se conectavam a quem participava da confecção de grandes obras.

Com a ideia de conscientizar, personagens como Black Panther (Pantera Negra), X-men­, Thing (Coisa, personagem do Quarteto Fantástico), entre outros, surgiram para revolucionar os estereótipos e fazer com que os problemas mais fantásticos fossem os mais humanos possíveis. Além de dar espaço e força para mulheres como a Invisible Woman (Mulher Invisível, personagem do Quarteto Fantástico), não só esposa de um herói, mas uma heroína por si própria.

De acordo com o autor – e muitos especialistas como Campbell concordam –, ao lermos uma história, desejamos nos identificar com os personagens. Turner, cognitivista e escritor do livro teórico The Literary Mind (A Mente Literária, tradução ao pé da letra), diz que parabolizamos as histórias justamente porque – para que elas façam sentido e chamem a nossa atenção – precisamos nos transportar para aquele espaço, aquele tempo e, assim, identificar a nós mesmos como parte daquele novo universo que nos é contado. Esse processo é o mais humano de todos, ele se chama empatia.

Lee nos ensinou que é possível, com uma pitada de vontade e uma genialidade imprescindíveis para alguém que tinha consciência do mundo em que vivia. Dessa forma, vieram as grandes responsabilidades.

Bem, ele claramente tinha superpoderes, porque só super-heróis possuem os melhores bordões: Excelsior!